15 de dezembro de 2004

...de regresso às palavras


Cansei-me de escrever porque escrever me cansa. Faz-me viver e destrói-me, traz-me ao mundo e afasta-me. Dói-me e desgasta-me.
As palavras sabem transportar, como nenhum ser humano consegue, o mais triste da vida, o mais hilariante e o mais destrutivo. O resto esquece-se, e passa.
A ausência das letras adormece-me e preserva-me a alma. Guardo-as, sem as usar, sem as escrever.
E sinto a sua falta. Como se sente a falta de um irmão, de um amigo.
Regresso, de quando em quando na esperança de que me recebam e me aceitem com as transformações que elas mesmas criaram na sua falta e no seu dormir.
E recebem-me sempre, tapando os olhos à minha fuga temida e acanhada, ao meu desaparecer irreflectido e tão inexplicavelmente imprescindível.
E compreendem-me ultrapassando o que são, simples palavras e só palavras. Personificando-se, personalizando a sua rectidão nas linhas e sendo móveis, na minha ausência, na minha fraqueza, no meu pensamento e na minha escrita.

6 comentários:

mfc disse...

A necessidade que nos ouçam é constante.
Ninguém vive isolado.
Mesmo quando ouvimos os outros queremos tb que o façam em relação a nós.

Anónimo disse...

"Verba volent, scripta manent"

Muito obrigado pela visita ao www.zarathustra.zip.net

Gostei muito deste seu texto. Poesia sobre poesia, sobre escrever, ofício tão nobre e tão popular, tão antigo e tão moderno, tão real e tão fictício, paradoxal "par excelence".

Anónimo disse...

Gostei do texto; essa hesitação em escrever...conheço-a bem : )

Stela

miguel disse...

escrever.ah, se eu soubesse escrever...

escrever é sangrar.uma vezes doi menos, outras doi mais.mas é sangrar.

Guida disse...

As palavras saiem-te melhor do que os pensamentos? :)
Beijo

stillforty disse...

As palavras que dizemos são ditas, saiem e têm volta, se te escutam e te respondem. As palavras escritas, ficam, são o teu testemunho, não saiem dali, estão permanentemente vivas, para ti e para os outros.