25 de Novembro de 2009
As pessoas têm sono
Adormeci e o meu corpo tentou compensar as duas noites anteriores que passei em branco. Soube-me bem mas a partir daí foi em contra-relógio para chegar a horas minimamente aceitáveis ao trabalho.
Claro que não foi possível.
Lá saí, carteira, guarda-chuva, almoço.
Até ao autocarro são 7 minutos.
Chegou logo, tive sorte.
Tinha como sempre um lugar para me sentar, ia de costas, mas ia sentada.
Apercebi-me que as pessoas têm sono.
Já eram 11 horas e vi cabeças a descair em resistência com a força do sono, e pessoas que assumidamente aproveitavam a viagem para compensar as noites como as minhas, em branco.
Pareceu-me estranho que houvesse tanto sono a meio da manhã. Porque é que será?
Será que as pessoas não têm tempo para dormir?
23 de Novembro de 2009
que se lixe
Na generalidade ele está assumidamente mau, nem é preciso dizer porquê, simplesmente está.
Lá fora e à distância é fácil a resignação. Parece que há pouco ou nada a fazer.
Aqui, mais perto, gostava que às vezes o mundo fosse um bocadinho diferente, um bocadinho melhor, com melhores pessoas, mais justas, mais honestas, mais sérias, mais precisas, mais leais, mais cumpridoras, mais sensíveis, mais delicadas, mais conscientes, mais gentis, mais informadas, mais pessoas.
Que se desse menos peso aquilo que não é importante, não tem importância, não importa.
Às vezes gostava que o mundo fosse um bocadinho diferente.
Não sendo, há a resignação.
Já não quero saber, para mim acabou, estou farto de ser pisado, farto de ser o parvo, farto de ser posto para trás, desconsiderado, desacreditado, estou farto de viver ofendido, triste, ridicularizado, estou farto de lutar pelo combate eterno, farto de ser passado à frente, farto de acreditar em pessoas, de compreender as pessoas, de acreditar nas pessoas, de me desiludir com as pessoas, de não querer saber dessas pessoas, de me importar com o que as pessoas dizem e pensam e esperam e acreditam.
Chega. É o que se diz de todas as vezes. Dá vontade de rir a insistência constante. Depois a revolução, o bater de pé, o motim, a repulsa, o nariz levantado e de novo a desistência. Talvez não valha de facto o esforço.
13 de Novembro de 2009
... (2)
Há coisas boas.
Há outras que se adiam porque mesmo com a força do que é bom, não chega.
O tempo passa e não dá para esperar. Porque ele também não espera.
Pensa-se em injustiça, em porquês, em mereceres.
Há de facto uma frustração que não cabe aqui. E para a frente está a vontade, e é até ela que tento chegar.
Lá chegarei. Se houver tempo.
28 de Setembro de 2009
18 de Setembro de 2009
Gostava de ser sapateiro
Há quem costure, cozinhe, dance, tenha jeito de mãos, arranje sapatos.
Tenho uma grande inveja dessas pessoas.
No dia-a-dia, contento-me com o meu trabalho que me parece sempre suficiente até começar a pensar realmente nele. De repente, sou atingida por um vento forte de ambição e empreendedorismo. Eu vou fazer isto! Eu podia fazer aquilo!
Pego num caderno, olho para a folha, preparo a caneta e procuro as ideias. Dura 2 minutos.
Lá vão elas.
Não tenho realmente jeitinho para coisa nenhuma. Acho um facto verdadeiramente triste.
Nem desporto sequer.
Podia lançar um site e vender coisas...
Podia vender poesia, encomendada. E dar às pessoas palavras em troca de euros. Era de rir se todas as aptidões se trocassem por dinheiros.
15 de Setembro de 2009
Patrick Swayze
Íamos para casa e treinávamos às escondidas ou com irmãs. Depois, ao fim-de-semana comparávamos com as primas o que tínhamos alcançado.
Os primos, longe da destreza necessária lá se revezavam para nos pegarem ao colo, nos erguerem naquilo que consideravamos na altura ser alto e depois seguir as suas vidas. Era a parte do filme que gostávamos mais.
Queríamos que nos pegassem ao colo.
Depois nas festas, nos anos de alguém explodíamos com a exibição pública. E era o auge.
Ainda hoje, o Dirty Dancing me faz dançar.
A culpa é do Patrick Swayze. Primeiro bailarino clássico, depois actor mas homem para quem o entretanto lhe chegou para ter jeito para patinagem no gelo, ballet clássico e futebol americano.
Morreu ontem e deixou uma história de vida que é para muitos considerada insuficiente. Só fez um ou dois filmes. Indiferente.
A vida para além dos filmes foi imensa e o que criou e deixou na minha infância é para lá de inesquecível.
E ainda hoje, sempre que ouço o Time of my Life, agradeço por já ter alguém, suficientemente alto que me pegue ao colo.
9 de Setembro de 2009
será que me interessa?
ly Hills onde só entra um cliente de cada vez, com hora marcada e todo o staff de empregados à sua disposição.
21 de Agosto de 2009
em mim
escrever é não aguentar mais guardar a alma.
é largar o peso das palavras e fugir a sete pés. escrever é quando a vida se mente a si mesma e tudo são flores e rios e céus azuis e passarinhos queridos e velhinhos felizes de mãos dadas. escrever é quando a vida se revela sem piedade e tudo é guerra.
escrever é paixão. é a vontade, a saudade estranha e a que existe. escrever é a tristeza. a grande e a pequena tristeza. escrever é ter um filho, perder um lápis, querer um gelado.
escrever é casar, fugir, esquecer.
escrever é amar o mundo e desejar que nunca existisse.
é viver numa ilha e estar preso no meio da multidão.
é perder o tempo com nada e não haver tempo para tudo. é chorar sem porquês, rir sem porquês, viver sem porquês.
escrever é estar aqui para sempre.
14 de Agosto de 2009
acordar (I)
No chão, sinto o frio
de uma casa
que passou a noite sozinha.
Não faças barulho.
Todos os meus gestos
pertencem à mesa rotina
enfadonha.
Tudo é sequência.
Ritmo.
Não faças barulho.
Ordeno.
Passo a passo, cumpro.
E no pensamento, a desordem.
Que conflito com a rotina.
Começa a batalha
entre o silêncio dos passos
e o barulho da mente.
12 de Agosto de 2009
mais ou menos sol
Ar condicionado no máximo, um frio de rachar aqui dentro, o sol lá fora está praticamente histérico. Grita.
Daqui nem o sinto. E chamo por ele durante mais de metade do ano.
Peço desculpa.
Mais ou menos.
9 de Agosto de 2009
7 de Agosto de 2009
6 de Agosto de 2009
30 de Julho de 2009
Caos Calmo
O entusiasmo não me deixou esperar pelo fim para divulgar este livro.
Bastaram-me até agora os primeiros dois capítulos para me apetecer precipitar até ao fim.
Sandro Veronesi é o autor do livro (que se transformou em filme) e que escreve de uma forma incrivelmente irónica e crua sobre a confrontação com a morte.
Fala de adaptações, da tentação do consumismo sem se prender às convenções modernas, a ambição e a luta contra a ambição desmedida.
A sua escrita é incrível, invejável e é daqueles livros que se quer ler de rajada e que se tem pena quando tem que se deixar o livro para depois.
A morte da mulher, enquanto Pietro Paladinni, o protagonista do livro, salva uma mulher na praia é o mote para uma onda de sofrimento, procura de entendimento, o afastar da dor, a normalidade e o afastamento.
O Livro, conquistou o prémio Mediterranée para melhor romance estrangeiro em 2008.
Quando o terminar despejo o resto de sentimentos que este livro já me fez sentir.
...
A porta fechou-se atrás de mim e o mundo inteiro riu-se.
Finalmente, já cá estou.
As coisas estão guardadas. Ali se vão demorar até a vida ganhar outro significado. Lá ficarão por muito tempo, no seu sítio. Depois muda-se.
Agora começou.
Há tanto tempo para a vida. Que sorte.
E ali dentro passa um mundo novo, que se demora à minha frente. Posso vê-lo, que sorte, outra vez.
Agora estou aqui. Aqui para ficar. Parada a ver, louca para sentir tudo.
Chegámos meu amor e eu gosto de viver aí, em ti para sempre.
6 de Maio de 2009
descanso
e adormecer um bocadinho.
Ficar em silêncio
que já nem me conhece.
(estou aqui, juro)
Queria deitar-me
na relva
na areia
ao sol
em mim.
Queria estender-me em mim
e deixar de me sentir
por um momento.
Falta-me o tempo
e passa-se tudo.
Queria fechar os olhos
e adormecer um bocadinho
só um bocadinho.
Ficar em ti
que já nem me conheces.
(estou aqui, juro)
Queria deitar-me
na relva
na areia
ao sol
Queria estender-me em ti
e deixar de me sentir
por um momento.
Falta-me o tempo
e passa-se tudo.
26 de Março de 2009
26 de Fevereiro de 2009
um pouco de morte
O livro Um pouco de morte de António Quadros Ferro encontra-se à venda nas Livrarias Artes e Letras, Poesia Incompleta, Livraria Trama e na Livraria Letra Livre.
Informações sobre o livro aqui: www.umpoucodemorte.blogspot.
e para comprar online aqui
16 de Fevereiro de 2009
Fé versus Darwin
Não há dúvida na ciência. Tudo o que hoje é considerado "verdade" é porque o é de facto. Teoria da relatividade, Big Bang, Teoria do caos, teoria dos conjuntos...
Deus não é assim.
Por Deus constroem-se teorias interiores com tanta ou mais força. Destroem-se os choques provocados na fé, pelas ciências, as certezas, os factos. Reza-se, pede-se, oferece-se, diz-se obrigado, pede-se desculpa, há arrependimento, sofrimento, alegria, agradecimento, entrega.
Alguns seguidores de Darwin, que consideram a criação do mundo auto-explicativa, rejeitam Deus, a sua existência, a criação do mundo em 7 dias e os actos bíblicos, aparentemente impossíveis aos olhos dos cientistas e dos "ver para crer".
Os que acreditam em Deus não rejeitam Darwin, porque não se rejeita a ciência. Porque de uma maneira estranha, que não se explica, que nem sequer faz sentido, os dois podem entrar nesta conta.
Impossível de explicar, de pôr em linhas, de provar. Chama-se fé.
5 de Fevereiro de 2009
Penitencio-me. E assumo a dor.
Nada me faz partir, no entanto, não tenho procurado nada, aparece às vezes nas piores alturas a vontade e a necessidade de estar aqui outra vez, onde não tenho estado. Continua a dor que gosto de viver para além de tudo, ausente de qualquer coisa, completamente colada a mim. Sou eu assim.
Não me quero perder nunca desta nostalgia e desta tristeza que de mim fazem parte e sem as quais nunca me reconheceria.
Há um espaço para além do qual não consigo ir, desistir de lá chegar não é para mim cobardia nem timidez. Estou assim agora. E esse lugar longínquo não me fará arrepender. Estará lá sempre.
4 de Fevereiro de 2009
tributo ao Óscar e a todos os cães
É só um cão.
Se um cão pudesse ser só isso.
E de repente amamos os cães como se amam as pessoas e só quem tem, sabe o que é isto de amar os cães.
E eles estão ali, com uma estranha importância e uma fingida indiferença. Fingimos que não são assim tão importantes e sentimos a sua falta ao final do dia.
Nem sequer era o meu cão.
E depois chora-se.
Este é o meu tributo a este e a todos os outros cães e a quem ama os cães sem medo de chorar quando eles desaparecem.
Afinal não era só um cão, era o Óscar.
12 de Setembro de 19997 - 4 de Fevereiro de 2009
26 de Janeiro de 2009
será que se diz adeus
quando se vai só ali?
Fui como fui
e fui só uma filha
que mais cedo ou mais tarde
diz adeus e vai.
Ficam os outros filhos
mesmo aqueles que ainda estão
mesmo aqueles que já foram.
adeus mãe.
Não é ir só ali. É ir.
E é dizer adeus como quem vai.
Deixei o que deixei,
fui só uma criança.
Não é o adeus de ir só ali,
fui só uma criança,
nem é o adeus de alguma vez
ter ali estado.
É só o meu adeus
pequenino, com pena
com esperança
pequenino, cheio de dor
e vontade de um abraço.
E cheio de pena
de não querer esse abraço.
O meu adeus é o maior.
adeus mãe, querida mãe.
5 de Janeiro de 2009
ano novo
Prepara-se agora a lista de resoluções que nem sempre se cumprem porque parece que 365 dias não chegam para combater a preguiça, a gula e outros pecados que só parecem pecados ao final do ano.
Ainda há tempo para resolver as coisas.
Vai faltar dinheiro, vai exigir-se mais emprego, vão aumentar as contas, a saúde será sempre um medo e uma prioridade, vão-se ansiar os dias de férias, os feriados e as pontes, algumas coisas vão parecer injustas, para outros, estupidamente simples. E este ano não será diferente dos outros. Ou talvez seja.
É possível ver a vida assim, com alguma esperança e alegria.
Desde que venha o sol e a família e os amigos.
Desde que tanta coisa.
Feliz 2009
22 de Dezembro de 2008
Vende-se Lisboa por meia dúzia de tostões
A Praça, é TMN, o Marquês, é TMN. A Av. Da Liberdade nunca esteve tão pobre.
Nem parece Natal em Lisboa.
A Câmara Municipal de Lisboa resolveu oferecer este ano aos Lisboetas, areia para os olhos bem embrulhadinha em disfarces de poupança.
A ideia até não seria má. Lisboa poupava e as marcas patrocinavam as luzes e os enfeites de Natal.
Acabou por acontecer que as marcas patrocinaram as marcas e Lisboa não ganhou nada com isso. Antes pelo contrário.
Este é o pior ano de iluminações de Natal desde que há memória.
Pergunto: porquê a poupança? Andamos a esbanjar noutro lado? A Câmara anda a fazer tanto por Lisboa que resolveu poupar este ano em iluminações? Não tenho visto medidas por Lisboa, nem estradas arranjadas, nem problemas de trânsito resolvidos, nem menos pobres nas ruas, nem prédios restaurados. Não tenho visto nada e deixei de ver o Natal.
Em vez disso, ofendem-me as iluminações deste ano e considero-as um atentado ao espaço público, uma iniciativa de mau gosto e um desrespeito para quem ama Lisboa.
As contrapartidas estão apenas nas mãos destas marcas a meu ver também elas oportunistas e na Câmara a responsabilidade enorme e a culpa de não saber defender a sua cidade.
Vale a pena ver aqui (http://www.cm-lisboa.pt/?idc=42&idi=37317) a justificação da câmara e mais que isso, a promessa, em que nada corresponde ao que vemos nas ruas.
19 de Dezembro de 2008
e mais um mês
Pareço alguém que diz que vai e não vai, aquele amigo que se vai esquecendo. Sou esse amigo que nunca aparece, aparece pouco, deixa de fazer parte.
Pode ser por tudo, pode estar tudo bem... está tudo bem.
Por isso mesmo continuo sem ter pena, como um amigo orgulhoso que se justifica com a sua felicidade.
O vazio é isso mesmo, felicidade.
Hei-de voltar sempre.
Volto já.
20 de Novembro de 2008
Não me custou esta ausência nem sinto o peso da consciência, foi por uma boa causa. Eu.
O tempo encolhe quando há muita coisa. Na felicidade passa depressa.
Ainda ontem aqui estive.
22 de Outubro de 2008
agora
9 de Outubro de 2008
à nossa escala
O melhor que nos podia acontecer era sermos afectados pela crise financeira que evolve o mundo. Significava pelo menos que estamos presentes.
Assim, ficamos contentes com a nossa própria crise, mais pequena, mas imensa.
Ri-me também quando ouvi dizer que as nossas poupanças estão salvaguardadas. Quais poupanças?
8 de Outubro de 2008
7 de Outubro de 2008
uma nova EMEL
Costumo pensar muito nas diversas profissões, acho que nunca tinha pensado nesta. A profissão dele, paga, disse-me, a tempo e horas todos os meses, é horrorosa.
Desabafou: toda a gente me odeia, chamam-me nomes, insultam-me, ameaçam-me e prometem levar-me a tribunal. Os piores são os médicos, os advogados e as pessoas com dinheiro.
Tentei suavizar a questão dizendo-lhe que o que interessa é o que nós somos, se trabalhamos honestamente, se cumprimos as nossas funções e se somos felizes ao final do dia.
Não me respondeu e prolongou o olhar vazio.
Nunca simpatizei com a EMEL, não nego, mas nunca se afastou de mim a realidade que a instituição não é a pessoa. Jamais insultaria uma pessoa que faz o seu trabalho, e sejamos honestos, nos multa, na maior parte das vezes porque não pagamos o serviço.
Depois falámos sobre carros, motores e outras coisas ligadas ao ramo automóvel sobre as quais naturalmente não me aprofundo. Por isso, ouvi-o, durante talvez 15 minutos, enquanto bebia o café, me abrigava da chuva e pensava nas pessoas.
26 de Setembro de 2008
KIDS
Lembrei-me que uma vez, com 15 anos e pouca curiosidade por sinopses, fui ao clube de vídeo, com o meu irmão, 4 anos mais novo que eu. E esta era a sinopse, inda bem que a não li:
Kids offers a bleak, unblinking view of a group of vacuous, thoughtless New York City teens in their ceaseless quest for sex, drugs, and trouble.
The film primarily follows Telly who, having just realized the conquest of his latest virgin, brags that by day's end he will claim one more.
While he and his friends brag to each other about their sexual exploits, Jenny describes her own less-than-romantic encounter with Telly.
Soon after the conversation, she learns that Telly, the only boy with whom she has slept, has infected her with the AIDS virus. Devastated, she sets out to find him and share the news. Meanwhile, Telly has set his sights on Darcy a lovely young girl whom he invites for a skinny dip at the local pool. Together with his friends, Telly drags Darcy along, and the entire crew jump the fence after hours. There he presents his now-familiar spiel which Darcy naïvely accepts, and the scene is set for disaster as the group heads back to a vacant apartment for an evening of sex, booze, drugs, and debauchery.
Jenny finally locates Telly at the party and rushes to confront him, although she may be too late to save the next virgin in line from sharing her fate.
Ficha Técnica:
Título Original: Kids
Género: Drama
Tempo de Duração: 96 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1995
Estúdio: Miramax Films / Independent Pictures / Excalibur Films / Guys Upstairs / Kids NY Limited
Distribuição: Miramax Films
Direção: Larry Clark
Argumento: Harmony Korine, baseado na história de Larry Clark, Leo Fitzpatrick e Jim Lewis
Produção: Cary Woods
23 de Setembro de 2008
tempo de inverno II
e porque de manhã pode chover e à tarde nunca chove.
é este tempo bom de inverno e de verão ao mesmo tempo. sinto uma estranha hipótese não sei bem para quê.
e ainda me dá gozo acordar de manhã e esperar o que aí vem. pode ser tudo. que maravilha.
17 de Setembro de 2008
10 de Setembro de 2008
Fátima vs Narcisa
Não sei o que me mais me surpreende e entristece. Se o facto de Fátima Felgueiras com certeza se safar à possível pena de prisão efectiva; se pela Asae ter fechado o Restaurante Narcisa, em Braga, um dos restaurantes mais emblemáticos da cidade e do país, a funcionar nas melhores condições desde 1930. O restaurante especializado em bacalhau, hesita agora entre fazer as obras a que a ASAE obriga, ou fechar de vez o restaurante.
Voto na prisão da Fátima.
8 de Setembro de 2008
tudo mentira



4) John Kerry e Jane Fonda





9) antilopes e comboios





14) Turista no World Trade Center


5 de Setembro de 2008
novo impacto
com isto perderam-se todos os comentários deixados desde então nos mais diversos posts. foi com pena que os perdi.
manteve-se a imagem deste blog, um esboço de Pedro Botelho.
e mantém-se a alma, para mim mais antiga que este novo modelo. tudo fica igual, espero que não deixem de comentar. interessa a hora e a recordação para lá da escrita.
3 de Setembro de 2008
o mundo afinal só acaba em 2012
Esta é a data em que termina o calendário maya. O que nos deixa em apuros. A força deste calendário é impressionante e a forma como este calendário foi definido, idem.
Concebem o tempo e o espaço como uma forma única e que flui não de forma linear, mas em espiral, ou seja em ciclos que se repetem e logo, que se adivinham e por consequência se controlam.
Mas porquê esta data?
O calendário Maya tradicional recorre a uma "contagem longa", é um calendário não repetitivo, assim definiu-se um início e um fim. É facilmente explicável pelos cientistas, historiadores o porquê do início deste calendário a 3113 a.c. Esta data em que começou a contagem dos 13 baktuns* é o máximo possível que se pode calcular com precisão e exactidão como sendo o começo da história.
- Primeira dinastia egípsia: 3100 ac
- A primeira cidade - Uruk na Mesopotamia: 3100 ac
- O Kali Yuga Hindu - 3102 ac
- A primeira divisão do tempo em 24 horas de 60 minutos cada, e cada minuto com 60 segundos é também cerca de 3100 ac na Suméria.
Desde 3113 a.c até 21 de Dezembro de 2012 decorrem 1.872.000 dias. Já tivemos tempo, segundo eles. A duração dos 13 baktuns "é o tempo de provação na terra, o tempo que existe para que o ser humano siga o seu curso de tentativa e erro, culminando no erro do tempo: a criação da civilização gregoriana 12:60 (12 horas e 60 minutos) que captura e e domina inteiramente o décimo terceiro baktun", o final dos tempos e o dia do Juízo Final da Terra.
Apesar da mística destas profecias, deste calendário e desta civilização, desejo um erro e ao mesmo tempo uma continuação desta história. E o mundo ainda não acabou.
*No calendário histórico de Contagem Longa, a cada ciclo de 20 dias (kin) correspondia um uinal; a cada ciclo de 18 uinal (360 dias) correspondia um tun; a cada ciclo de 20 tun (19,7 anos) correspondia um katun; a cada ciclo de 20 katun (394,3 anos) correspondia um baktun. Uma data era representada pela sequência dos números correspondentes a cada ciclo: baktun . katun . tun . uinal . kin.
Consultas:
Diário de Notícias
to-campos.planetaclix.pt
apocalipsetotal.blogspot.com
ietovni.blogspot.com
29 de Agosto de 2008
há um nada infinito
há mais, que sabe a pouco
e há o pouco que se agiganta
num instante
e sem horas.
lá fora há mais que tudo
há espaço
há tempo
há gente, tanta gente
lá fora há outra vez um nada
repleto de ninguém,
cheio de si
tanta gente outra vez
à volta
em frente
aqui e só aqui.
lá fora
em todos
e nas ruas
há tanta coisa
lá fora
e mais, cada vez mais
há tanta coisa
dentro de mim.
25 de Agosto de 2008
"O livre arbítrio não existe.
Contemplando uma cascata, acreditamos ver nas inúmeras ondulações, serpenteares, quebras de ondas, liberdade da vontade e capricho; mas tudo é necessidade, cada movimento pode ser calculado matematicamente. O mesmo acontece com as acções humanas; poder-se-ia calcular antecipadamente cada acção, caso se fosse omnisciente, e, da mesma maneira, cada progresso do conhecimento, cada erro, cada maldade. O homem, agindo ele próprio, tem a ilusão, é verdade, do livre-arbítrio; se por um instante a roda do mundo parasse e houvesse uma inteligência calculadora omnisciente para aproveitar essa pausa, ela poderia continuar a calcular o futuro de cada ser até aos tempos mais distantes e marcar cada rasto por onde essa roda a partir de então passaria. A ilusão sobre si mesmo do homem actuante, a convicção do seu livre-arbítrio, pertence igualmente a esse mecanismo, que é objecto de cálculo. "
Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'
de regresso
25 de Julho de 2008
que os meus filhos encontrem os pirilampos
In Pedro e o Mágico de António Quadros, meu avô
Os Pirilampos
Era uma vez um pai e três filhos. Todas as manhãs, antes de ir para a escola no seu automóvel, a que costumava chamar familiarmente «Bate-Latas», em lembrança do seu primeiro carro que por ter sido comprado em terceira mão e a prestações, fora baptizado com esse nome qe lhe ia a matar.
A mãe ficava em casa a arrumar, a lavar, a limpar, a fazer o almoço, e por isso não entr a na história. Estes filhos tinham-se habituado desde pequenos a ir de automóvel para a escola. Estavam tão habituados, que já nem achavam graça, e julgavam, calculem, que todos os meninos iam também para a escola de automóvel! Muito, muito mais tarde, o pai arrependeu-se de ter facilitado tanto a vida aos filhos. É que a vida não é fácil para ninguém. Não é bom que os meninos julguem que a vida é fácil.
Mas naquele tempo, o pai gostava muito de levar os filhos. O pai trabalhava todo o dia, não tinha tempo para estar com eles, e assim de manhã, os quatro no «Bate-Latas» podiam estar juntos, conversar e rir. O pai ficava aborrecido se algum dia não podia levá-los.
Eles chamavam-se António, Mafalda e Rita. Eram os três aloirados, e o pai achava-os bonitos. Mas já sabem como são os pais! Acham sempre os filhos as crianças mais bonitas do mundo. O António era o mais velho. Tinha oito anos e achava-se muito superior às irmãs. Vinha a seguir a Mafalda. Tinha seis anos, era a mais teimosa, mas às vezes ria-se tanto que parecia que ia rebentar. A Rita tinha só cinco anos e julgava-se tão espertalhona, que o António pasava a vida a mandá-la calar. Às vezes o António batia nas irmãs, mas é melhor não falarmos nisso, porque então ficariamos todos muito desiludidos com ele. Um homem a bater em mulheres! Nunca ouviram dizer que numa menina não se bate nem com uma flor?
Um dua, como de costume, iam os quatro a caminho da escola quando o pai s einclinou para o volante, e se pôs a espreitar para a buzina do carro, que ficava mesmo no meio do volante.
O pai disse então:
- Que massada!
Os filhos ficaram intrigados, julgaram que o «Bate-Latas» estava com alguma avaria, o António perguntou:
- O que é pai?
O pai respondeu:
Agora é que nunca mais posso tocar na buzina!
Desta vez foi a Mafalda que fez outra pergunta:
- Porquê, está estragada?
- Não filha, por causa dos pirilampos.
- Os pirilampos?! – exclamaram os três ao mesmo tempo.
Eu já andava desconfiado – disse o pai – ontem à noite tinha visto umas luzinhas a saírem da buzina. Agora já sei o que é.
- O que é, pai? – interrogou a Rita, que apesar de ser muito espertalhona não tinha percebido bem aquela história toda.
- Foi uma família de pirilampos que veio instalar-se aqui na buzina, lá por dentro. Parece-me que são três.
- Ó pai, o que são os pirilampos? – perguntou a Rita.
- Parvinha! – disse o António.
O pai explicou então:
- Os pirilampos são bichinhos muito pequenos que vivem no campo. Mas têm luz, é como se tivessem lâmpadas eléctricas dentro da barriga.
Nisto, a Rita começou a rir.
- Electricidade dentro da barriga!
Depois, a Mafalda começou a rir ainda mais e o António também, e por fim, o pai. Riam rodos como perdidos, e agora o António era o que ria mais:
- Electricidade dentro da barriga!
O carro teve que parar num cruzamento, e um polícia pôs-se a espreitar lá para dentro. Se calhar julgava que era uma família de doidos.
Quando ficaram amis sossegados, a Rita disse:
- Eu nunca vi pirilampos...
Mas o António, com os seus ares superiores, explicou:
- Eu cá já vi pirilampos, na quinta do tio Manim. E ....
... e acrescentou muito depresa:
- Até já apanhei um.
Nisto, chegaram à escola. O pai disse-lhes:
- Digam adeus aos pirilampos...
Mas eles já nem pensavam nos pirilampos. Sairam do carro a correr porque tinham visto os amigos, os colegas, o jardim da escola.
No dia seguinte, de manhã, iam os quatro outra vez, quando a Rita deu um grito:
- Ó pai, os pirilampos!
O pai respondeu:
- Sabem, agora já sou amigo deles.
Espreitou para a buzina.
- São uns espertalhões, que vocês nem calcula. São três: o pai pirilampo, a mãe pirilampo e o bebé pirilampo. E sabem porqu e é que eles vieram instalar-se na buzina?
- Não! Responderam o António, a Mafalda e a Rita numa só voz.
- O bebé pirilampo estava doente, fazia muito frio. Os pais tiveram medo de que ele morresse, e descobriram então que dentro da buzina estava muito mais quentinho. Chamem-lhes parvos!
- Ó pai, posso espreitar?
- Isso não é bem-educado, Rita. Eles estão agora os três no seu quarto. Tu também não gostas que te espreitem quando estás com a tua irmã no quarto, pois não?
- Mas os pai já espreitou....
O pai respondeu:
- Sim, mas ´s sóq uando esles me dizme que posso olhsar.
O Antõniod esconfiado perguntou:
- Como é que o pai os compreende?
- Já sei falar a língua deles.
Disse a Mafalda:
- Ó pai, como é que eles se chamam?
O pai pôs a boca muito perto da buzina. Disse então para os filhos:
- O pai chama-se Pari-Pari. A mãe chama-se Peri-Peri. E o filhos, que já está muito melhor e mais crescido, chama-se Piri-Piri.
A Mafalda, que costuma rir imenso, deu uma grande gargalhada:
- Pari-Pari, Peri-Peri e Piri-Piri!
Depois, os dias foram passando. O pai levava os filhos todos os dias à escola. Todos os duas contava-lhes histórias dos pirilampos, descreveu o quarto em que viviam, contou a maneira como Pari-Pari conheceu Peri-Peri, e às vezes até contava histórias ao Piri-Piri. Houve mesmo um dia em que, como o Piri-Piri não havia maneira de adormecer, todos se puseram a cantar uma cançao de embalar, para ele adormecer mais depressa.
Veio o verão e durante reês meses o pai não levou os filhos à escola. Em Outubro, quando começaram de novo as aulas, o pai voltou outra vez, muito contente, a levá-los à escola no «Bate-Latas», que também ia muito bem-disposto.
A primeira coisa que a Rita perguntou logo que entrou para o carro no primeiro dia, foi:
- Ó pai, e os pirilampos?
Foi então que o António disse:
- Ó minha pateta, então não sabes que era tudo uma brincadeira do pai?
E a mafalda:
- Não há pirilampos nenhuns dentro da buzina!
O pai disse então:
- Essa agora! Vocês dizem que não há pirilampos?
O António e a Amfalda responderam, ao mesmo tempo:
- Não há, não há!
E a Rita, já meio desconfiada:
- Ó pai, é verdade que não há?
O pai olhou para dentro da buzina:
- Estou a vê-los agora mesmo. Vejo o Pari-Pari deitado em cima da cama. Estará doente? A Peri-Peri anda a varrer o chao.
- E o Piri-Piri? – perguntou a Rita.
- O Piri-Piri está a dar cambalhotas. Este ano está muito grande e a luzinha dele tornou-se tão forte, que até parece um farol.
A Rita disse cheia de curiosidade:
- Ó pai, deixe-nos espreitar.
- Se quiseres...
A Rita espreitou, e não viu nada.
- Ó pai, não vejo nada.
- É que fecharam a luz, foram todos dormir. Não sabes que eles dormem de dia e vivem de noite? Para isso é que eles têm as lanternas.
O António exclamou:
- Não viste nada porque não há pirilampos. Foi tudo brincadeira do pai.
Os dias foram correndo. Passaram meses. Nunca mais se falou em pirilampos. O pai continuou a levar os filhos à escola, todas as manhãs. Mas um dia, o pai inclinou-se como antigamente para a buzina e chamou:
- Piri-Piri! Piri-Piri!
Então a Rita:
- Ó pai, eu também já não acredito nos pirilampos!
O pai ficou assim um bocadinho triste, e disse:
- O pai sabe muito bem que não há pirilampos, aí na buzina. Como é que podiam estar aí dentro?
A Mafalda disse:
- Ó pai, nós já não somos bebés...
E a Rita repetiu:
- Já não somos bebés.
Chegaram à escola. Saíram a correr, como de costume. O pai ficou sentado sozinho, dentro do automóvel. Viu os filhos a conversar com os amigos. Dise-lhes adeus com a mão, e sorriu-lhes. Mas o sorriso do pai era um bocadinho triste. Inclinou-se para o voltante e disse, em voz baixa:
- Pari-Pari, Peri-Peri, Piri-Piri, é melhor irem-se embora, e escolherem outro carro e outra buzina.
Adeus Piri-Piri.
Carregou no botão de contacto, destravou, meteu a alavanca das mudanças em primeira, acelerou, pôs o carro a andar, e foi para o trabalho.
Agora, que os pirilampos se tinahm ido embora, já estava cheio de saudades de todos eles. Do Pari-Pari, da Peeri-Peri e do Piri-Piri. Porque sabia que nunca mais voltaria a vê-los.
21 de Julho de 2008
18 de Julho de 2008
António Quadros, 85 anos a 14 de Julho
Às vezes é preciso um esforço. Procuro não me prender às imagens de hoje que já não são iguais. Ele não era assim.
Era como eu o via.
Havia a cultura e as letras e os pensamentos, havia tanto que ainda está por descobrir. Havia uma mente para além do tempo e do espaço e à frente desse tempo e desse espaço.
Ele era como eu o vejo. Para além dos feitos e dos ganhos e dos percursos e dos textos e das teses e do talento. Era tudo isso que era ser tão grande, mas era ainda maior quando sabia ser pequeno.
António Quadros, um grande pensador, um enorme homem, sabia tão bem ser pequeno, como nós.
E travámos o carro por culpa da família de elefantes invísiveis, e recebemos de Natal uma casa de montar onde passámos meses a fio, e recebemos os miminhos vindos de outros países, os doces. E vimos dar na missa uma nota e ficámos impressionados, e rimo-nos com a água quente para regar o jardim e recebemos 50 centávos por cada duas favas que apanhássemos e jogámos futebol na praia, brincámos com os truques das mãos quando se finge ser capaz de cortar e voltar a colocar um dedo, perdemo-nos com os bonecos de movimentos perpétuos e as bonecas que vão da maior para a mais pequena e se encaixam umas nas outras e hoje sabemos que se chamam matrioshka's. E sentímos aquele cheiro todo a livros e questionámos a pulseira com as duas bolinhas que tinha no braço e achámo-lo por isso moderno e observámos o seu tique com os dedos de uma só mão que tocavam um no outro, o indicador e o polegar e o outro tique do pescoço e queríamos tanto comer dos seus aperitivos de queijo e questionámos o porquê de só comer marmelada, queijo e banana ao jantar e o porquê de guardar todos os seus remédios num cesto que era um galo...
E a maneira de se sentar na cadeira na praia com as mãos em cima do joelho e um panamá azul claro e quando saltava a rede no court de ténis sem pestanejar e chateáva-se quando dúvidavamos que nos adorava e adormecia com um garfo na mão para acordar e ainda se lembrar do sonho e às vezes fingia ouvir-nos e estava a ser o outro homem que também era tão bom...
Ele era um mágico. E é assim que ainda o vejo, como o homem que escreveu uma simples e incrível história para crianças. A luz que há de ficar para sempre nas nossas vidas, mesmo que nunca nunca mais se veja um pirilampo.
7 de Julho de 2008
sem título
Gritas alto pelo meu nome?
Sim, bem alto o teu nome.
Daqui a nada, já sem voz
puxo-te até mim
e lembro-me de nós
quando nos queríamos
por perto.
Só nós?
Mais perto, sempre.
Ainda somos assim.
Daqui a nada já te sei
há um sinal atrás,
na perna,
há um punhado de cabelo
que decide ser rebelde
ao cair do dia.
Fazes-me rir.
Daqui a nada chega um quase
podemos ser um
Assusta-te isso?
Que te queira asism?
Daqui a nada, quero ser livre
saber-te mais
chamar-te mais alto
e prender-me a ti.
24 de Junho de 2008
desculpa-me tempo
era longe o tempo
era longe a alma
deitei-me.
a culpa foi de alguém
quem disse a primeira palavra
quem baixou pela primeira vez
os ombros
quem desistiu
quem desistiu de quem...
quem é que te deixou ir
assim sem mais nem menos
e nem se lembrou
da saudade
e da falta.
aqui só há umas flores
é o único bocado de vida
e nem essas se exibem
deixam-se ficar
aqui há sons constantes
que vão cá dentro
até ao sono
e depois não há mais nada.
não podias estar aqui
também tu, mais tempo
não podias acompanhar
esta noite de sempre
e do dia inteiro
não podias estar agora
dentro de mim
prefiro-te longe
amo-te mais assim
e deixo-te viver
nos restos do meu passado
e nos outros.
4 de Junho de 2008
De nihilo nihil*
*Nada vem do nada
cheira-me a exagero
Em Viena, e com vista à igualdade entre homens e mulheres, pretende-se mudar os sinais de trânsito. Os luminosos para os peões , os sinais "atenção passadeira" e os sinais de "adulto com bebé ao colo". As cotas serão naturalmente para ambos os sexos, os homens também passarão a estar representados nos sinais que eram anteriormente só para mulheres.
Parece que a mensagem destes sinais é para quem reclama machista, feminista, sexista e discriminatória. As mulheres também querem ver mostrada a sua figura quando se atravessa a rua e os homens querem poder ter o melhor lugar do autocarro.
Para além disso, as figuras femininas passarão a ser representadas com saias e rabos de cavalo. Chique!
Por menos comentários que existam, parece-me que a guerra dos sexos chega a cada vez mais campos da vida quotidiana. Exagero ou não, fica ao critério de cada um.
Este assunto poderia a partir daqui seguir para outros como os papéis que hoje se reclamam, a emancipação forçada e a necessária.
Às vezes parece-me que se abusa dessa emancipação e que se a recusa, sempre que dá um certo jeito.
30 de Maio de 2008
estamos à espera
Há soluções para alguns, como o autocarro, o metro... sim. tão simples que seria se muitas dessas alternativas ao nosso (in)dispor fossem viáveis.
Parei para pensar. o mal que me fez a mim foi simples. De facto, passei a deixar o carro em casa embora o use sempre que precise e sempre que a minha preguiça seja mais forte. Não me lembro da última vez que enchi o depósito que tem sido invaravelmente alimentado às mijinhas.
Aproveitei a onda de pensamento e apercebi-me da vergonha e até mesmo da injustiça que são os impostos. Não o conceito em si, mas o valor a que chegaram. Não posso pensar apenas em mim e no quanto custa abdicar de uma enorme percentagem do nosso ordenado, mas sim dos que já vivem com tão pouco.
E agora? Não podemos sair, não podemos comprar livros, não podemos comprar pão. Não dá muito jeito ter filhos com este ordenado, férias nem pensar, até ali ao Algarve não, porque o que se paga em portagens e em gasolina é exorbitante.
Eu estou à espera. Confesso. Como devemos estar todos.
Na Assembléia esperou-se ansiosamente também, que Sócrates referisse pelo menos aquilo que se passa, mas o silêncio é de facto muito mais seguro que a verdade.
O que é quer dizer "maior eficiência energética" para os pescadores e para os agricultores, para os que trabalham do outro lado do rio e levam os 3 filhos à escola? Ah, pois é! Esqueci-me! É que a medida tão aplaudida de Sócrates, em congelar os preços dos passes sociais é apenas para Lisboa e Porto. Sim, os outros que se lixem. Se calhar a gasolina está mais barata nesses outros lugares!
Também me consigo rir com as promessas de aumento do salário mínimo nesta fase em que estamos. Tudo aumentou. Tudo. Só posso pensar que é o mínimo.
Não tenho em mim as capacidades para apresentar uma solução, reconheço isso, mas eu não sou político. Ninguém espera absolutamente nada de mim.
21 de Maio de 2008
abandonar Portugal
Portugal tem, como tantos outros países, inúmeros defeitos, posso até admitir que tem demais, que é o país do mundo inteiro com mais defeitos, que não podia ser pior, que estamos a viver os piores tempos de sempre e a saúde é má e a educação é má, os valores estão alterados e o desemprego é imenso.
Sim, já se sabe. Portugal é o pior país para se viver. Com alguma raiva e satisfação digo, que felizmente há os que tomam a iniciativa de fazer as malas e abandonar Portugal. Pronto. Já foram.
São muito felizes e nem se criitica quando alguns nascem com a coragem de procurar as condições ideias, que as encontram lá fora, que conseguem exactamente o que querem noutro país. Fico feliz por todas essas pessoas, mais triste fico pelas que se obrigam a abandonar o país que amam.
Depois há as outras.
De longe é tão fácil apontar o dedo e vir cá de vez em quando, achar que em dois dias se retoma o nacionalismo, o patriotismo. Se nunca existiu, nunca irá existir.
De longe, pode chamar-se nomes a Portugal e achar se conhece tão bem este país, porque a comparação é o melhor medidor. Lá não é assim, lá temos uma rede de transportes espectacular, este tempo agora está sempre asism aqui em Portugal? Lá tem estado imenso sol. Lá tenho a ajuda do estado, lá tenho um médico que vai a casa e não pago nada por ele. Lá tenho isto e aquilo.
Que bom.
Não sei se existe alguma palavra para descrevere este sentimento que me parece quase racista acerca daqueles que considero despatriados. Não sendo racista, porque assim não me reconheço, posso assumir que pura e simlesmente não gosto dos que largam Portugal para serem felizes e retornam para o entristecerem.
É o nosso país. Tão perto de um amor incondicional. Só uns compreendem, e só uns têm a sorte de regressar a Portugal, deixar lá fora tudo o que há de bom e do melhor e mesmo assim sentir que regressaram a casa. Isto é amar o nosso país, privilégio e inteligência só de alguns.
19 de Maio de 2008
somos tão simples
Porto brandão está mesmo aqui ao lado ou mesmo aqui ao meu lado. Nem é um lugar especialmente bonito, a viagem é que vale a pena. Deixa-se o carro em belém, pagam-se os €2 de ida e volta, apanha-se o barco e aproveita-se aquela viagem que parece estupidamente curta para quem não tem a pressa de ir trabalhar.
Há o vento do costume, houve com sorte o sol agora raro em tempo de primavera, há a vista, se nos virarmos de costas, da louca Lisboa que parece tão serena. Parece impossível nessa viagem não sentir que Lisboa pertence, a cada um que a vê.
Lá, em Porto Brandão aproveita-se a tipicidade de comer umas ameijoas e beber uma imperial.
à vinda, vemos Lisboa a aproximar-se e sentimos a falta de a ver mais vezes, ao longe.
se pagarmos €4 pelos bilhetes é bom sinal, Lisboa prefere ser vista assim, ser criticada e admirada, tudo vezes dois.
30 de Abril de 2008
como se nada fosse
estar ali sem ar
como se um peso quisesse o nosso lá em baixo
a tocar na areia, em tangente
como se faltasse o sopro e a brisa
e o vento e a corrente
como se fosse fácil fechar os olhos
ficar. na areia.
tocar-lhe e ser também o pó
é como se fosse mais claro assim
largar as mãos
não querer mais
é como se fosse tudo logicamente inútil
selvagem ao ponto de ser em vão
escapar
E depois um rasgo de tudo
uma onda de memórias e histórias
e vida
e depois um pequeno futuro
e risos que ainda podem vir
e palavras
e os abraços…
…e depois tu.
14 de Abril de 2008
10 de Abril de 2008
reality show
A história da professora e o telemóvel invadiu a nossa realidade embora todos já calculássemos (da maneira que andam as coisas, só podia). A professora podia ter reagido, a aluna reagiu perante uma professora estática. E etc..
Hoje, outra notícia. 6 raparigas raptam uma outra, levam-na para casa, fecham-na lá dentro e contam com a vigilante ajuda de dois rapazes cúmplices da cena.
Batem-lhe. Ela não reage. Pudera, eram seis... O filme dura uns 5 minutos, angustiantes, devo dizer.
O objectivo era colocar online, para todos os amiguinhos verem. O rapaz que filmou a professora a ser enxovalhada também pôs o seu filme caseiro no YouTube. Ouvi algures num comentário televisivo o nome "realizador do filme" para se referir ao menino.
Questiono-me perante esta necessidade crescente de se ser reconhecido de uma forma totalmente obcura, sinistra, contrária. Questiono-me também perante a internet. Reconheço o meio, e a razão nos suspiros que tentam desculpar os dias de hoje. "antes fazia-se, mas às escondidas". Não me interessa.
A TVI, canal que muitas vezes me choca pela incompetência, incita os telespectadores a enviarem filmes. Não interessa bem o tema, enviem tudo o que puderem, se virem um assalto, uma senhora a cair na rua, um prédio prestes a ruir, seis raparigas a baterem numa outra, uma professora a receber impávida e serena gritos de uma miúda vinte anos mais nova do que ela. Não interessa, enviem ttudo o que houver para chocar, para envergonhar e para alertar ainda mais quem ainda não viu o suficiente.
Não gosto de viver neste reality show. A violência já de si incompreensível que vejo como a desgraça dos outros está a fazer parte das nossas vidas. Podemos escolher ver ou não, bem sei, podemos ignorar, gozar e rirmo-nos com tanta tristeza, mas pergunto-me onde está o fim para todo este programa? Qual o objectivo? E o que se passa com as pessoas?
Falei sobre isto. Pronto.
Agora posso respirar fundo e desligar-me.
27 de Março de 2008
ir e voltar
só uns minutos
para fazer um recado
E fui descendo as ruas
mesmo depois da tarefa cumprida
Tentei explicar a estranha dor que senti
quando cheguei a casa
horas depois
e não fui capaz.
Ó gente da minha terra
acompanhava o meu passeio
e o passeio dos outros
que estavam tão longe de mim
Vi um homem que pedia moedas
em troca de nada.
em troca de estar ali parado
esquálido. Frio.
Vi um outro que de graça
se deixava ficar parado
na tristeza
que o acompanhava há tempo demais.
Apeteceu-me abraça-lo por estar tão velho
e por ser tão triste.
Desci mais pelas ruas
e fui recebendo essa tristeza
e fui percebendo essa tristeza
que também eu trago em mim.
De um lado da rua vi uma loja
Que na timidez do seu tamanho
Minúsculo
vazia
Vendia luvas velhas
E luvas lindas
Que já ninguém quer comprar
Do outro lado vi uma loja
Que na extravagância do seu tamanho
Minúsculo
cheia
vendia jóias para o umbigo
para a barriga
e para o resto do corpo
A essa hora já não ouvia mais música nenhuma
embora tentasse
Andei mais
e depois voltei para trás
o caminho era a subir agora
e mesmo assim não me custou
Vi as retrosarias
vi as pessoas encostadas ao chão
e aos quadros
que eram iguais aos quadros dos vizinhos
Vi os turistas
no sítio dos turistas
Vi os cães dos homens que cospem fogo
para os turistas
vi as cervejas em cima das mesas
e a essa hora já sentia os pés
e a alma.
Tudo pesado e triste
Demasiada beleza.
fotografia de isaurinda brissos
24 de Março de 2008
pequeno regresso
O Tibete e a China continuam em conflito, o mundo não teve tempo ainda para ultrapassar outras guerras, o fisco aperta cerco a fornecedores de casamentos e acontecem outras coisas mais ou menos banais que uns dias não fazem a diferença nem chegam para se mostrarem grandes mudanças.
O tempo passou, pouco tempo, algum tempo. Ainda "aqui" continuo. Aqui e aqui.
17 de Fevereiro de 2008
ainda há tempo
Quero ver um sorriso
está tudo bem
achas mesmo que vais morrer?
Ainda quero ter filhos, muitos filhos, alguns filhos,
um filho.
confirmar amores
o amor.
Ainda quero ser velha,
não muito velha,
só velha. Ou velhinha.
Nada se passa, vais ver
Está bem, está bem.
É só no tempo, esta verdade
mais uma vez o tempo
muito tempo, algum tempo
o tempo certo.
Esperar. Rezar. Fazer acontecer por dentro
ter fé. Acreditar.
Qualquer coisa sem sentido
que invente sentido no tempo
e na espera
e na verdade,
Está tudo bem, vais ver
achas mesmo que vais morrer?
Tudo se encontra em dois lados
Em dois momentos
hipóteses
Não chores
dá tempo ao tempo
o tempo salva e decide
Cria e rouba
onde está o sol
tenho que ir para a sombra
tenho medo da luz, do calor
não te rias
já não é o mesmo sol
nunca será o mesmo sol.
Vou viver na sombra.
à sombra.
na minha própria luz
se a encontrar.
quando a encontrar.
(ainda quero ter um filho
ainda quero confirmar o amor
ainda quero ser velhinha
não, não acho que vá morrer).
14 de Fevereiro de 2008
A MINHA VIDA INTEIRA NO PIANO DE ANGELA HEWITT
(...)
Gulbenkian, 13 de Fevereiro de 2008
7 de Fevereiro de 2008
Cartas inúteis
Al Berto
in O Anjo Mudo
29 de Janeiro de 2008
os génios os loucos e os oportunistas
Nos livros e noutros transportes da arte encontra-se o génio de quem parece pensar diferente, de quem coloca as palavras desordenadas, desorientadas, figuradamente anárquicas em poesia ou em prosa ou nas disposições da alma e na criatividade de artista.
Na vida o génio confunde-se. Mistura-se uma certa necessidade aparente de ser louco com a impossibilidade de não o ser na vida e com os outros, com os próximos.
Deixo de compreender o génio quando se desculpam as malvadezes e as perversidades e as justificam com o dom carregado ao longo da vida.
A alma acolhe a transformação de nós em nós quando nós nos transportamos para as artes. Quando a forma de arte se opõe à alma, deixa de ser verdadeira e passa a ser uma farsa imensa de quem quer ser louco na poesia, na literatura, na pintura e acima de tudo na sua relação com os outros, na forma como abandona a vida.
O prémio é egoísta, comodista e interesseiro. A opção de se ser louco para se ser génio é triste, apesar de compreender que a loucura e a criatividade conduzam à genialidade, não compreendo a obrigação de ser louco para ser génio.
Independentemente de reconhecer ou não o génio nunca reconhecerei o louco, o homem, a sua vida. Nunca elogiarei nem louvarei quem use a loucura para se conduzir a si mesmo, quem use os outros sob a sua muleta, os magoe e os desrespeite para se alcançar a si mesmo e ao mesmo tempo se perder.
Reconheço a obra. Nada mais.
Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (...) A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, me penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. (...) A curva flutuante de um seio de donzela, a provocação que é a anca do efebo ou da ninfa, tão parecidas que se confundem; a amplidão do olhar e os seus mistérios, esquivas e trocadilhos - íntima largueza do reino da alma que jamais encontrarás seu fundo, e a cor alacre arrebatada duma risada; os passos, o cetim da pele, o emaranhado dos pêlos do púbis, e a alegria loira duma cabeleira solta, desmanchada nos abraços, saindo triunfal duma cama semidesfeita. A persuasão da fala, a fenda estreita que é a porta do paraíso e as outras mil maneiras ,de ver e gostar de ver um corpo ser nosso, subjugado por uma técnica ou o seu próprio desejo dissoluto; e tudo assoprado por dentro, tudo recheado de novas grutas ainda por explorar e que também jamais as conhecerás ou iluminarás todas, se elas a si mesmas se ignoram. Tudo cativado por uma divindade que é o todo, que é o Corpo, em risos e gritos, balbuceios de orgasmo e ranger de dentes; e a solidão duma lágrima lenta que desce a face no silêncio e na amargura; e o resfolegar do moribundo que já nada quer dos homens e com os homens, mas ostenta ainda na severidade da máscara, no desdém da boca desgarrada, uma altaneira nobreza; e a ferida do teu sexo aberta como uma nova última esperança de recomeçar tudo desde o princípio como se fora a primeira vez a fuga para o sono e o sonho (...)

Luiz Pacheco- Escritor, crítico literário, polemista maldito, fundador da editora Contraponto, nasceu em Lisboa em 1925. Próximo da tendência surrealista, escreveu entre outras obras, 'O Teodolito' (1962); 'Comunidade' (1964); 'Crítica de Circunstância' (1966); 'O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor' (1970); 'Literatura Comestível' (1972); 'Memorando Mirabolando' (1995).
25 de Janeiro de 2008
Não tínhamos as mãos dadas
apesar do sol e do tempo
e de toda aquela decoração.
Essa era a perfeição do sonho.
Lado a lado
como se estivéssemos sós.
Como se nunca houvesse solidão
havia um silêncio alegre
que chegava para encher
um novo mar.
E nas poucas vezes que nos vimos
enchemos o silêncio de nós
e juntos, sem as mãos dadas
demos as mãos
Naquele passeio.
23 de Janeiro de 2008
As memórias foram ficando
e a alma ganhou tamanho,
Meu Deus, ficou gigante.
E a recordação constante
que parecia de sempre
chegou ontem.
Foi quando chegou.
Quando me levantei
e me desenrolei de mim
crescendo a partir de um corpo
que não parecia o meu
e era o meu, enorme meu Deus
ficou enorme.
E quando olhei de novo
estava esse corpo
e essa alma
infinitos no tempo
e no espaço.
Tocavam o céu.
E o tempo que se perdeu,
que deixei fugir
reencontrou-me.
E tudo começou de novo.
Maior.
17 de Janeiro de 2008
o que se passa com o mundo?
Há coisas que preferia não saber, já que existem e que em mim não tenho o poder de as impedir. posso apenas surpreender-me e gritar por aqui.
Município de Roma aprova uma moção apresentada pelo partido Refundação Comunista em que é pedido ao conselheiro municipal que as escolas separem as crianças ciganas nos autocarros escolares devido aos confrontos registados.
Confundem-me os valores que se defendem num mundo e numa Europa considerada global, unificada e unificadora. Confunde-me que se aprovem leis deste tipo sem se procurar soluções no mínimo mais éticas e menos desprovidas de racionalidade. Os pais das crianças que exigiam a separação das mesmas, defenderam a sua imposição porque “as crianças ciganas comportavam-se de forma demasiado energética”.
Não sei o que isto significa.
14 de Janeiro de 2008
o que sou agora e não hoje
(...)
e depois a decisão.
Nunca poderei recuperar a alma. Nunca puderei crescer até ser grande e imensa e a mulher que um dia quis ser e ainda quero ser e vou ser e sei ser. Não há indecisão entre a escolha de ter alma e o vazio. Não há dúvida. Hoje escolho-me e é altura de ir embora. Hoje decido por mim e num bate pé e murro na mesa furioso ganho a força que aqui deixei e levanto-me, num só gesto até à saída, até ao começo.
4 de Janeiro de 2008
Fácil. Caminhar sem peso
e de mãos a abanar
e esperar que voltes
já sem noção de tempo
nem de mim.
Há tantos e tantas mãos,
tantos sofreres e risos
que se ouvem ao longe.
Histéricos
sofridos.
Há por aí almas e cantares
há nos lugares mais à vista
transparências
e desembaraços.
há nas linhas da frente
os corajosos e os atrevidos
os tímidos que se desprendem
os altos e destemidos.
Já não sei quem quis quem.
20 de Dezembro de 2007
antes de qualquer coisa
Teve graça até. estar ali no vazio
Depressa
passavam coisas
passavam-se coisas
Acontecia demais para o oco do espaço
Iam os risos, voltavam sorrisos
Iam abraços
e vinham lembranças.
Que delicado é pensar
no que passou.
Faltam pessoas
Há gente a mais...
E o espaço é pequeno
Não há extensão para o pensamento
Não há tempo para voltar atrás
Continua!
E fica tudo ali
Tomando o lugar da memória.
Quando termina
sobra alguma coisa
e leva-se na mão para não se perder
mesmo quando não houve nada.
Quando o vazio está tão coberto
e tão cheio
que nos faz rir.
13 de Dezembro de 2007
naquele dia, a voz
Houve um dia de felicidade que ficou para sempre e o sempre era só ali, tão pequeno, naquele momento.
Havia um riso interior gigante que sobreviveria para o resto da vida só à custa daquele instante.
Não é uma questão de “se” é uma questão de “quando”. E de longe, ao longe houve a primeira felicidade do mundo. Houve um mundo novo, desconhecido, puro. Começou tudo do início. Ergueu-se um novo mar. Inventaram-se as nuvens e os pássaros, inventaram-se as palavras e os silêncios divinos, inventou-se o sonho, o desejo.
Inventou-se o amor e o vento. A brisa. A voz.
outros natais
Chega o Natal em Outubro e começa o frenesim. Fala-se muito em compras, antecipa-se o fim de ano, as férias. Fala-se ainda mais em compras. A isso, já me habituei, até acho graça àqueles que compram com meses de antecedência e aos que só compram um quarto de hora antes. Aos que se recusam a comprar e aos que oferecem a desconhecidos.
Gosto dos enfeites de Natal nas ruas, nas lojas, nas almas.
Ao que não me habituo é à raiva Natalícia. Escreve-se muito acerca do “minimalismo consumista” que assassina o espírito de Natal. Estou tão longe desse sentimento.
Oferecer presentes continua a ser representativo do nascimento de Cristo. Ouro, incenso e mirra. A questão é que evoluímos, para bem ou para mal, já não temos só mãe e pai, agora temos a madrasta, o padrasto, os pais deles que não são nossos avós e os nossos avós.
Não me aproximo nem um bocadinho do horror com que se define o Natal, o ter que dar e ter que ir e a pressão.
Aos nossos filhos, temos a capacidade de ensinar o que é o Natal, como deve ser reconhecido, a sua importância e dar, com contenção mas dar. Porque esse continua a ser o objectivo último de representação da época.
Não me interessa que haja quem veja o Natal só assim, uma obrigação de comprar, interessa-me que de facto tudo seja um pretexto para nos juntarmos com a família, estarmos próximos e sentirmos que esse sim, é o verdadeiro espírito de Natal.
7 de Dezembro de 2007
26 de Novembro de 2007
sobre os poetas
(podia ter sido eu a escrever aquilo se é aquilo que sinto)
Sem mais nem menos tem uma Moleskine e é lá que quando cabe escreve a sua vida, é lá que às vezes cabem alguns bocados do seu interior.
(que raiva, quem me dera conseguir ser assim)
Há folhas espalhadas na alma e também lá se escrevem umas coisas.
Chega às vezes o guardanapo de papel do café da manhã. Depois amachuca-se e guarda-se ora no bolso se tiver sido inofensivo, ora na dita Moleskine se parecer que está ali a vida.
Ao fim um tempo está tudo espalhado por aí. As palavras, as letras, aquilo que se sente para não dizer o sentimento.
Já não se consegue arrumar mais nada e ao mesmo tempo continua tudo à solta: a facilidade de escrever a anti-obra é demasiada e as palavras continuam a fazer todo o sentido.
Fácil escrever sem se ambicionar mais nada. Fácil demais desarrumar tudo e soltar a confusão.
19 de Novembro de 2007
Winter poetry
warm up the mind.
There’s a smaller space
to think, and a smaller space
to run
(don’t run off )
and something is so much
greater.
It’s not the rain
or the humid inside
the mind.
Outside
the house,
its not the warm clothe
or the fire.
The heart is alone
wondering a way
wanting a way out
there’s only one winter
only this weather
this season will change you
and grow you up
in this moment you will fell
all of it.
Lay down on the leaves
And watch the trees
Fall in love. Be in love.
And don’t cry.
15 de Novembro de 2007
hoje quis-te para sempre
Havia dores de ir embora que se sentiam na barriga.
Abracei-te com mais força do que nos outros dias e quis-te ainda mais, como sempre.
Era orgulho e saudade, por estares ali, mesmo à minha frente.
Escrevi um poema cá dentro, que eras tu. Decorei-o detrás para frente e cantei-o em silêncio.
Cantei-te alto meu amor. Como se amanhã a minha voz fosse contigo na tua passada. Mesmo sabendo que o grito será sempre maior.
Havia nos meus olhos o primeiro futuro. Hoje, sem vergonhas, quis-te para sempre.
E lembrei-me disto, porque é disto e de ti que eu vivo.
Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
13 de Novembro de 2007
5 de Novembro de 2007
no olhar de hoje
Podes passar-me a água?
Amas-me?
Dormes comigo?
Todos os dias os nossos olhares se encontram.
Há vezes em que o dia começa diferente, em que o olhar começa ao amanhecer e nunca mais acaba.
Não quero adormecer…
O amor dos outros aumenta o nosso amor, a admiração pelos que se amam, faz-nos compreender o nosso amor. Desejamos o mesmo, queremos o mesmo, pedimos mais.
O dia acaba com o olhar que escolhemos de manhã.
Não feches os olhos nunca. Vamos ficar juntos para sempre.
E nesse olhar escolhido o para sempre nasce com sentido e guarda-se, reserva-se durante os olhares do copo de água e os outros olhares fugidios de rotinas que se acumulam.
Todos os dias os nossos olhares se encontram e há uma hora do dia em que só a memória os guarda.
Até amanhã. Dorme bem. Adoro-te.
E os olhos fechados sonham alto, deitam-se e esperam pelo novo olhar da manhã, de amanhã e de todas as manhãs.
Amo-te.
Dorme comigo.
Acorda e encontra o olhar que escolhemos.
30 de Outubro de 2007
um ano para ter 28
Acordar de manhã e sentir que sou eu que abro os olhos
Aproveitar o dia e não sobreviver a ele
Esquecer que um dia fui criança mas nunca deixar de a ser
Ler mais livros
Procurar mais
Saber aceitar a verdade das coisas
Procurar novas verdades
Encontrar meios-termos
Deixar-me amar e amar mais
Perder medos e andar em frente sem pensar em resultados
Aceitar a felicidade por inteiro, sem nunca a pôr em causa
Desiludir-me só se for preciso
Ir a mais museus, exposições, espectáculos, ver mais
Ter mais iniciativa, segurança, força e confiança em mim mesma
Perder-me se for preciso e se souber o caminho de volta
Falar sem pensar
Pensar antes de falar
Encontrar mais poesia e escrever mais poesia
Ver casas
Ter projectos e ambições
Descobrir jardins novos
Aprender novas palavras
Render-me à impossibilidade das coisas
Não me confortar com a impossibilidade das coisas
Andar mais a pé e menos de carro
Beber menos café e fumar menos cigarros
Dançar mais
Adormecer mais
Ir atrás do sol
Planear mais
Ir, sem planos
Fazer mais viagens
Não ir à neve e cair outra vez
Imaginar-me menos no futuro
Oferecer-me mais ao presente
Continuar a amar a vida
Continuar a amar as pessoas
Crescer.
Ser feliz.
Ser ainda mais feliz
E aprender com William Shakespeare e outros:
que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em vão. Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas segundos para destruí-la, e que poderás fazer coisas das quais te arrependerás para o resto da vida. Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas são tiradas da tua vida muito depressa, por isso devemos sempre despedir-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos
responsáveis por nós mesmos. Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser. Descobres que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto. Aprendes que, ou controlas os teus actos ou eles te controlarão e que ser flexível nem sempre significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, existem sempre os dois lados.
Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer enfrentando as consequências. Aprendes que paciência requer muita prática. Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te empurre, quando cais, é uma das poucas que te ajuda a levantar.
Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já comemoraste. Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas. Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são disparates, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobres que só porque alguém não te ama da forma que desejas, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo.
Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, poderás ser em algum momento condenado. Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes. Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás.
Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores. E aprendes que realmente podes suportar mais...que és realmente forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida!"
25 de Outubro de 2007
2 momentos e meio
No dia seguinte, amei-te como nunca te amei. E nem te apercebeste. Só tinha uma frase na minha cabeça na saúde e na doença...
Amei-te porque ti vi tão imensamente puro, recém-nascido, indefeso. E talvez não só por isso apesar de não ter ainda encontrado a razão. Amei-te e isso basta-me.
(...)
in Roma be Red
22 de Outubro de 2007
não gostar de super-heróis - A resposta
Torci o nariz.
Da minha lista de filmes preferidos fazem parte as comédias, documentários, que envolvam máfia, casos de tribunal, catástrofes naturais, romances, biografias e outros.
Não fazem parte alguns romances históricos, Jackie Chan e amigos, e adaptações de BD (excepto o eterno Super Homem)
A verdade é que este tipo de filmes é completamente dirigido aos homens.
Como li e concordei (www.bedeteca.com), as mulheres na BD sempre tiveram papéis secundários e estereotipados. A dona de casa inocente que desconhece o outro lado do seu marido super-herói, as vilãs sensuais e as bombas sexuais heroínas.
Quando penso em ser salva, penso na Cinderela, na Branca de Neve e em Príncipes, nunca sonhei com um homem que fosse capaz de voar, agarrar-se a prédios através de teias de aranha ou cuspir fogo, gelo e outras capacidades supra naturais.
Existiram e existem excepções como li também no mesmo artigo: Bécassine, Little Orphan Annie, Blondie, Mulher Maravilha, O Coração de Julieta, Apartamento 3-G (BD romântica), Barbarella (a primeira heroína adulta – 1962), Lucy dos “Peanuts”, Mafalada e Mónica. Foram todas heroínas, mas não as suficientes para transportar as mulheres para o mundo das BD.
A verdade é que a diferença entre uma Cinderela e um Quarteto Fantástico é a realidade.
A Cinderela, mesmo que se mostre em formato animado é capaz de me transportar em 2 segundos para um mundo real, o Quarteto Fantástico nunca o fará.
Todas as mulheres gostam de ser salvas e de ter ao seu lado um homem forte, um amigo, alguém que as ajude em momentos de fraqueza e as segurem na fragilidade.
16 de Outubro de 2007
Doris Lessing
Não posso criticar seja que decisões forem sem conhecer, sem a ler. Deixo por isso as outras criticas, as que li.
“Ainda que a senhora Lessing tenha tido algumas qualidades admiráveis no começo da sua carreira, penso que o seu trabalho nos últimos 15 anos é um tijolo... ficção científica de quarta categoria”.
Harold Bloom, critico literário
“Decisão decepcionante, (...) a língua inglesa tem escritores mais importantes e mais significativos como John Updike ou Philio Roth”.
Marcel Reich-Rannicki, critico literário alemão
“É estranho que um autor de língua inglesa venha a ganhar um prémio tão pouco tempo depois de Harold Pinter”.
Umberto Eco
9 de Outubro de 2007
Luísinha
E no meio da solidão que não criaste, chegou alguém,
outra pessoa que não te substituiu
mas que te revezou
E ainda hoje choro por ter sentido essa falta
preenchida
Sem nunca te superar
completou-te.
Ainda hoje me pesa a consciência
por a ter sentido como minha mãe.
Hoje choro porque essa mãe morreu.
Já longe de mim, longe da falta
longe da carência
Morreu.
E se me lembrar do princípio de mim
lembro-me dela.
Penteou-me o cabelo,
falou-me dos rapazes,
apontou-me o caminho,
acreditou em mim.
Ensinou-me a crescer
e abriu o meu mundo.
Salvou-me do mundo.
Choro a morte de uma mãe
passageira.
Choro a morte de uma mãe
para sempre.
Para nunca me esquecer:
Caberão? Os anjinhos. Camaralho. Irish Coffee. O paredão e o penso. Jonas. After sun. Pesos nas mãos. Rolos de cabelo. Dia 1 de Março de 2007- a última vez que a vi. E tudo o resto.
8 de Outubro de 2007
ciúme
Marie La Fayette
Sempre
Do teu passado
não tenho ciúmes.
Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos cabelos,
vem com mil homens entre o peito e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo!
Trá-los a todos
ao lugar onde te espero:
estaremos sempre sós,
estaremos sempre, tu e eu,
sozinhos sobre a terra
para começar a vida!
Pablo Neruda
in Os Versos do Capitão
3 de Outubro de 2007
o lado obscuro de cada um de nós
Lamentava no entanto que à religião faltasse o empirismo, aquilo que alimentava a sua personalidade número 1, e que às ciências naturais faltasse o significado, que alimentava a sua personalidade número 2.
"Lá estava o campo comum da experiência dos dados biológicos e dados espirituais, que até então eu buscara inutilmente. Tratava-se, enfim, do lugar em que o encontro da natureza e do espírito se torna realidade".
[Passou no seu casamento por aquilo que é quase um facto universal - os indivíduos são diferentes uns dos outros. Basicamente, constituem um para o outro um enigma indecifrável. Nunca existe acordo total. Se cometeu algum erro, esse erro consistiu em ter-se esforçado demasiadamente por compreender totalmente a sua mulher e por não ter contado com o facto de, no fundo, as pessoas não quererem saber que segredos estão adormecidos na sua alma. Quando nos esforçamos demasiado por penetrar noutra pessoa, descobrimos que a impelimos para uma posição defensiva e que ela cria resistências porque, nos nossos esforços para penetrar e compreender, ela sente-se forçada a examinar aquelas coisas em si mesma que não desejava examinar. Toda a gente tem o seu lado obscuro que - desde que tudo corra bem - é preferível não conhecer.
Mas isto não é erro seu. É uma verdade humana universal que é indubitavelmente verdadeira, mesmo que haja imensas pessoas que lhe garantam desejar saber tudo delas próprias. É muito provável que a sua mulher tivesse muitos pensamentos e sentimentos que a tornassem desconfortável e que ela desejava ocultar de si mesma. Isto é simplesmente humano. É também por este motivo que tantas pessoas idosas se refugiam na própria solidão, onde não serão incomodadas. E é sempre sobre coisas de que elas não desejariam estar muito cientes. O senhor não é, obviamente, responsável pela existência destes conteúdos psíquicos. Se, apesar disto, ainda for atormentado por sentimentos de culpa, reflicta então sobre os pecados que não cometeu e que gostaria de ter cometido. Isto poderá eventualmente curá-lo dos seus sentimentos de culpa relativamente à sua mulher].
Carl Jung, in 'Cartas'
ainda aí estás...
Não saias assim, sem as mãos que te dei. Ao menos leva-as e leva mais coisas.
Não quero. Não quero sequer pensar que depois já não vai ser como o agora ou como o antes porque eu te vou deixar.
Não me deito e não quero as tuas mãos. Houve um dia em que pensei se me fosse embora por ti... o que seria do meu futuro e o da minha alma e da memória. Como poderia recuperar a memória se a minha memória és tu? Como poderia deixar-me levar no tempo e esperar que ele aqui ficasse, dentro de mim, sempre, mesmo contigo longe.
Vou viver num vazio. Não me importa. Não me importo se desaparecer o rasto e se ficar nada. Não me importo se atrás de mim vier um caminho de branco.
Nunca te magoei.
A verdade é distinta. Como a vejo não é como a sentes. Na tua verdade não houve dor, nem mágoa, nem espera. Na minha verdade posso imaginar o tempo como quero.
Injusto.
Injusta é a falta. A ausência. A inexistência e o poder de deixar ficar tudo como está.
Ainda te amo.
Não! Não! Não!
Acorda meu amor...
1 de Outubro de 2007
eu sou um filme

Eu sou este filme "Imensidão Azul" de Luc Besson. Sou sonhadora, única. Sublime e encantador(a).
Que filme é você? Uma criação de
28 de Setembro de 2007
...
Finalmente consegui estar só comigo.
Parece que estou sempre, que me perco sempre em mim, que me encontro onde menos espero. Parece que fico sozinha. Fico sozinha, não parece.
Há um lugar comum, o de estarmos sós com gente à volta. Há essa gente que está só, ao mesmo tempo que nós. Há uma verdade, desconhecida e secreta de todos os solitários.
É quando se opta que dói. Quando a dor de estar tão cheia de gente e de vozes e de ouvidos e de olhares se torna tão insuportável. Não chega estar só. É preciso fugir e largar tudo sem pena e sem peso e largar as vozes mais baixas e as mais altas e ir porque se tem o direito de ir. E largar o medo da solidão. Eu gosto de estar só, eu quero estar só.
E à nossa volta há outra gente que não se importa com a nossa solidão, que a compreende e que a vive. Não vejo nada mais bonito que partilhar a solidão. Ao silêncio, habituámo-nos, tem graça. Eu divido a minha solidão contigo se a quiseres. Toma este bocadinho cheio de sorrisos ao longe.
E esse silêncio repetido é de tudo o que há, o mais desleal e o mais sarcástico. Está ali. Está aqui, digo. Está até se inventar uma palavra e uma coisa que aconteceu ontem à tarde, no trânsito, ou quando cheguei a casa e a chuva era tanta que mal dava para abrir a porta, de frio, de vento, de frio.
Nada surge. Nada se exige, nada se enaltece ou elogia.
E é assim como na vida.
Obrigo-me ao silêncio para poupar o direito à solidão, que me assiste. Me compreende. Partilho-a quando a quiserem, está aqui, pertence-me mas partilho-a.
26 de Setembro de 2007
ainda me servem as palavras de ontem
Sei o que quero. E sei o que posso.
As circunstâncias que me levaram até ao que sou hoje nunca seriam suficientemente interessantes. Interessa-me o que posso ser. Interessa-me o que sou. Interessa-me o pensamento, o sentimento, o espírito.
Interessam-me com fascínio estranho os obstáculos, desafios, buracos que obrigam ao salto, descidas rápidas, mas mantenho um pé na prudência, no juízo.
O percurso das vidas transforma-se em igual. Interessa quando se pára, analisa, pesquisa, quando se é diferente sem se tentar ser diferente, original, único, inédito nas acções, nas ideias, nas palavras.
Qual é o meu retrato? Como me desenho? Procuro sem ansiedade ou desassossego mas anseio pelo próximo passo.
E o que me move é e será sempre o pensamento, a ideia. Descobri-los.
Não o pensamento inteligente, o pensamento lateral, criativo, perspicaz ou criador.
Nem é o pensamento da vida, sobre a vida, pela vida no seu aspecto mais amplo ou transcendente. Ou o pensamento filosofal, exagerado, circunscrito às ideias e ampliado ao universo.
Mas o pensamento sobre as coisas, sobre as pessoas, sobre os objectos e as imagens. Um pensamento tão simples que é o de todos os dias e talvez o de todas as pessoas mas que de vez em quando se transforma na ideia brilhante, no texto exemplar ou simplesmente no que procuro ser. De vez em quando.
E este é o meu retrato.
25 de Setembro de 2007
Blackle
Depois de lido o artigo do blog de Mark Ontkush que dizia que o motor de busca mais conhecido do mundo poderia economizar com a sua própria página, o Google seguiu as inevitáveis tendências ambientalistas.
A verdade é que as páginas a branco e as cores brilhantes consomem mais 20% de energia. Com um documento de Word, por exemplo, o computador consome cerca de 74 watts, e se estiver todo preto o consumo passa para os 59 watts. Mark calculou ainda a poupança de 550 megawatts/ano que faria o Google se aderisse à cor preta.
Dias depois, mas sem deixar o original Google, surgiu o Blackle.com.

20 de Setembro de 2007
sempre
Começo a falar sem cuidado e espero as palavras com a mesma ansiedade com que as digo, com a mesma surpresa. Apesar disso, nunca me surpreendo.
Repito as introduções para marcar quem sou e o que aí vem e repito as conclusões para fincar as palavras inconsistentes. São leves essas palavras.
Depois misturo tudo. E no fim, interessa tão pouco.
Há a saudade que tem outro significado, há o amor que custa a uns falar, há uma cumplicidade e uma sintonia que as palavras não compreendem.
E na saudade deita-se uma ausência obrigatória que explica tudo. Não posso viver sem ti, não sei viver sem ti.
Afirmações incoerentes, ilógicas e irracionais. Emocionais.
E quando há um longe no amor há uma tristeza. Porque é que tinhas que ir? Não me deixes aqui...
E depois o regresso. Felizmente há um regresso.
Eu espero por ti.
11 de Setembro de 2007
é só um vento
Parecia loucura repetir as palavras, bater o pé e ser mais forte que o vento.
Dava vontade de rir este pensamento e nada do que me competia cabia ali. Não deixava de ter graça a contradição.
Não estou a perceber nada. Era o que pensava ao mesmo tempo que do outro lado haviam os outros pensamentos mais para trás. Mais valia não pensar nem querer saber, por mais supérfluo que fosse.
Continuo aqui. Que remédio, continuo aqui. Como se nada fosse, como se eu não fosse nada porque não quero e é mais fácil.
Debaixo de mim estou eu.
Devia levantar o meu peso, pois devia.
Hoje não me vi, como já o disse.
Ai, que mentira sem fim. Não me importo de fingir aos bocados, ao fim do dia tenho aquele miolo meu, a parte boa, verídica.
Agora afinal, tenho-me aos bocados porque numa determinada altura tudo se mistura...
Continua a ter graça, continua a ser o vento, continuo a ver-me e a deixar de me ver. Ali.
Prometo-me um fim.
(...)
10 de Setembro de 2007
a ler vamos
Nos últimos anos habituámo-nos à informação gratuita através de novos jornais como o Destak, o Metro ou o mais recente Meia-Hora. A informação é de leitura propositadamente fácil, concisa e resumida para consumidores na sua maioria urbanos e familiarizados com a pesquisa rápida na internet ou até no telemóvel.
Vivem exclusivamente de publicidade e por isso a sua distribuição é gratuita oferecendo informação suficiente para uma viagem de metro ou de comboio que dure cerca de 20 minutos.
Embora se desconfie da qualidade e até da quantidade de informação oferecida por este tipo de jornais, a verdade é que conseguiram, por exemplo em Espanha, mudar alguns hábitos de leitura, aumentando o consumo e a tiragem de jornais de referência espanhóis, ao fim de semana, uma vez que os gratuitos são apenas distribuidos de Segunda a Sexta.
Chegou a vez do Global Notícias, mais um jornal gratuito, distribuído também ele de 2ª a 6ª na Grande Lisboa e com uma tiragem de 150.000 exemplares.
A diferença estará no conteúdo, uma vez que é construído através dos títulos de alguns dos mais importantes jornais portugueses pertencentes ao grupo Controlinveste: Jornal de Notícias, Diário de Notícias, 24 Horas, TSF, O Jogo, Evasões, Volta ao Mundo e outros.
O Conselho editorial é constituído por vários directores dos meios do grupo, mas liderado por João Marcelino, director do DN e tendo Silva Pires na direcção executiva.
O jornal saiu hoje e apesar de não ter dado pela sua distribuição, fica a imagem.
4 de Setembro de 2007
uma inevitável referência
(...) Nada se interpõe nesta frivolidade, neste alegre mas triste ruído, e o avanço até à morte acontece imperturbável, firme no nada que representa, num ambiente festivo mas de sofrimento, semelhante à jubilosa cegueira de um bêbado. Nada se interpõe e poucas almas se iniciam. Este torpor elimina Deus, para os que crêem, e a morte, para todos os outros – e a festa continua, prossegue a indiferença, a ferida não existe, a dor não se eleva! E eu encontrei o rochedo e não sei agora o que ser, porque entre isto e o resto mantenho um enorme intervalo, não sei agora viver porque não posso apenas desfrutar, esquecer, seguir sem espanto (...).
in Cadernos de AF
3 de Setembro de 2007
e rompes por onde passas,
esgotas a terra
anulas os teus.
Roubas caminhos
que não te pertencem
como se te faltasse
aquele choro
e o procurasses
por baixo,
rasteiro,
silencioso,
apagado.
E procuras os beijos
na água
e no sangue.
E viste o fogo
que deixou
a memória eterna,
os primos
e outra vez os beijos
e as cartas,
o segredo
e o medo.
Deixaste trilhar em ti
o Amor
de um colo de graça
e de uma morte vingada.
E beijas a mão
de quem ama e passa.
E por mais mil anos
e outros mil
cairão por ti
outras dores
enamoradas, que só tu vês
e tocar-te-ão outros amores
cheios de graça.
Outro Pedro
e outra Inês.
31 de Agosto de 2007
30 de Agosto de 2007
os verdadeiros burros e os falsos loucos
Acabo de me lembrar, a propósito, de uma anedota espanhola. Coisa de dois séculos e meio passados dizia-se em Espanha, quando os Franceses construíram o primeiro manicómio: «Fecharam num lugar à parte todos os seus doidos para nos fazerem acreditar que têm juízo». Os Espanhóis têm razão: quando fechamos os outros num manicómio, pretendemos demonstrar que estamos em nosso perfeito juízo. «X endoideceu...; portanto nós temos o nosso juízo no seu lugar». Não; há tempos já que a conclusão não é lícita. "
Fiodor Dostoievski, in "Diário de um Escritor"
29 de Agosto de 2007
do vento mais forte
e da chuva doida
que vem de todos os lados.
Ainda me assusta o escuro
e a ausência de janelas.
Ainda me faltam horas
quando o dia acaba
e sobra-me o tempo
de pensar.
(...)
27 de Agosto de 2007
ainda Madre Teresa
O livro Mother Teresa: Come Be My Light (Madre Teresa: seja a minha luz) vai ser lançado no dia 4 de Setembro pela Doubleday, nos Estados Unidos.
A madre de etnia albanesa, dedicou a sua vida aos pobres e doentes na Índia, e morreu em 1997, com 87 anos.
O desejo dela era que as cartas fossem destruídas, mas o Vaticano determinou que elas fossem preservadas porque poderiam transformar-se em relíquias de um santo, disse uma representante da Doubleday.
Madre Teresa já foi beatificada, mas não canonizada.
A revista Time publicou excertos do livro na sua página na Internet. O livro foi compilado e editado pelo reverendo Brian Kolodiejchuk, um dos defensores da sua canonização.
O conteúdo das cartas não deve afectar a campanha pela santificação, já que muitos santos na história da Igreja eram perturbados por dúvidas em relação a sua fé, a começar por são Tomé, que duvidou que Jesus tinha ressuscitado.
Além disso, de acordo com a Bíblia, o próprio Jesus questionou Deus, ao perguntar, na cruz: «Pai, por que me abandonaste?».
Mesmo assim, as cartas são um contraste à imagem pública de madre Teresa de incansável lutadora pelos pobres, movida sempre pela fé.
«Nunca li a história da vida de um santo que tivesse uma sobriedade espiritual tão intensa. Ninguém sabia que ela estava tão atormentada», disse o reverendo James Martin, editor da revista jesuíta America.
Os textos tratam de vários assuntos, mas os que devem causar mais polémica são os que constam do que a editora chamou «cartas sombrias».
«Por favor reze especialmente por mim para que eu não estrague a Sua obra e que Nossa Senhor possa mostrar-se, pois há uma escuridão tão terrível dentro de mim, como se tudo estivesse morrido», escreveu ela em 1953.
«Tem sido assim mais ou menos desde que dei início à 'obra'».
Em 1956: «Tão profunda ânsia por Deus - e (...) repulsa (...) vazio (...) sem fé (...) sem amor (...) sem fervor. (Salvar) almas não atrai - O céu não significa nada - reze por mim para que eu continue a sorrir para Ele apesar de tudo».
E em 1959: «Se não houver Deus, não pode haver alma, se não houver alma, então, Jesus também não é real».
Às vezes ela tinha dificuldade em rezar. «Digo palavras de orações comunitárias e faço de tudo para tirar de cada palavra a doçura que ela tem de transmitir mas minha oração de união já não existe (...) não rezo mais».
in SOL/Reuters
24 de Agosto de 2007
«Deus não existe»
Certamente que os que não acreditam não se escandalizam, não se surpreendem, não se interessam e seguramente que muitos desses têm na ponta da língua um “eu não disse?”.
A verdade é que ao longo da minha existência não houve um dia ausente de dúvida.
Nunca me importei porque horas depois havia um certo sinal que passava por mim, muitas vezes sem me aperceber e retribuía a fé.
Vivo bem nesta inquietação e nesta ambiguidade, porque me fazem procurar uma perfeição e uma beleza na vida, enquanto aqui estou, fazem-me ser melhor, acreditar em mim, nos outros e no futuro.
Hoje questionei-me sobre a influência da fé dos outros em mim. Talvez tenha alguma. Talvez os momentos de dúvida passem a ser mais carregados, talvez a fé se demore e os sinais sejam mais fracos.
Talvez não.
Talvez me faça compreender e admirar mais o Homem e saber que a dúvida nos faz seguir, muitas vezes, o caminho certo.
Madre Teresa de Calcutá escreveu, descobriu-se agora, «Sinto um vazio e um silêncio tão grande que eu olho e não vejo, oiço e não escuto, a língua move-se e não falo» (...) «condenados ao inferno sofrem um castigo eterno porque perderam Deus. Na minha própria alma sinto uma dor enorme com esta perda, sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que, na realidade, não existe».
Sem cinismo digo, ainda bem que teve dúvidas. Escrevê-las abre apenas espaço para controvérsias, sérias ou não e espaço para condenações vagas e debate.
Eu, crio o meu próprio debate e duvido sempre, sem medo de me perder e sem medo que os outros, crentes a vida toda, se tenham perdido inúmeras vezes durante a vida.
Não lhes roubou felicidade e talvez lhes tenha enchido a alma.
23 de Agosto de 2007
onde vos vi
Já não eram meus aqueles pés. Tudo era nosso e tu, pegaste-me ao colo, sem eu querer.
Achava que podias cair, disseste-me.
E num orgulho enraivecido empurrei-te as mãos e desprendi-me de ti, soltei-me e ganhei uma força desmedida que me encheu por dentro.
Fui imprópria na minha fraqueza, porque sempre fui fraca e tu sempre me pegaste ao colo.
Era leve no teu corpo e um peso imenso na tua alma que já não podia comigo.
Fiz-te um favor e sei, que o teu amor ainda me carrega às costas.
Coitado de ti que pensas ainda em mim e me proteges ao longe. Podes largar-me porque a minha infelicidade já não chega até ti, a minha fraqueza já não te enfraquece, a minha injustiça já não te condena.
E no entanto, continuo a sentir-te, mesmo aqui ao lado.
Um dia, quem sabe um dia, quando a minha força te surpreender, quando o meu respeito ganhar coragem para se equiparar ao teu, eu possa voltar.
22 de Agosto de 2007
a vantagem da frivolidade
Milan Kundera, in "A Imortalidade"
21 de Agosto de 2007
antes de me ir embora
Estou com medo de me ir embora.
Se souberes deixar-te ficar, deixa-te ficar. Fica por aqui. Fica aqui, em mim.
Mas já é hora.
E o tempo que era o nosso passou.
Se puderes deixar a alma, deixa-a ficar aqui, guardo-a bem, não te preocupes. Leva o resto, as tuas coisas e as tuas graças, as tuas mãos, o teu dormir.
Deixa-me também um beijo e um abraço caso tenha saudades.
Fazes-me rir, outra vez.
Deixa-me também metade do teu riso e o teu meio sorriso quando só podes sorrir ou bater-me. A outra metade quero vê-la depois de ires.
Se regressares, quando regressares.
Um dia quero regressar. Sem tempo, sem hora de ir de volta, sem hora de voltar a levar as coisas e a deixar-te metade de mim. Um dia quero trazer a mala cheia e guardá-la bem ao longe onde só chego de escadote.
Então o nosso tempo não passou. Começou agora um tempo novo, cheio de horas só para nós. Um tempo que não quer ser contado ao minuto, que se deixa ir.
É esse tempo que quero.
E essa idade chega. O tempo já não precisa de tempo. Só nós.

























