2 de janeiro de 2005

Silenciar

Agiganta-se no pensamento abstracto, pronto para se deixar ir, disposto a despedir-se do resto. E ali, sozinho nas suas ideias, entregue somente ao seu espírito indizível, num instante de inspiração em que o ar lhe chega furioso aos pulmões, em que o olhar se apaga pois tudo converge e se comprime, hesita na subjectividade do Absoluto, e sente-se capaz de se sublimar, de se entranhar num lugar de poucos, esquecendo por completo a razão, fazendo apenas parte dela. O corpo deixará de existir, as formas conjugar-se-ão, e o entremeio terrestre será breve completando assim o entendimento. E a humanidade, distanciada do recontro, não mais sentirá o seu espaço, não mais lhe sentirá o toque, o perfume, a gravidade… prescindirá de tudo isso, deixando-se simplesmente embeber, levando-o consigo. O assalto revela-se-lhe uma insónia sem retorno, um ponto esquecido no Espaço, uma força pendurada, uma estranha ausência que se desfaz em vazio, um cerco. Por fim o encontro com todas as suas tristezas subjectivas. Ali se conhece, e só ali o entristecimento faz sentido e poder-se-ia explicar, ali as angústias incompreensíveis de sempre vêem-no à escuta, descorado, pronto enfim para a sua solidão. Mas a significação afastar-se-ia da genuína experiência, e o silêncio jamais se poderia entender. A proximidade fora só sua, e sentia-a com toda a força no corpo, no corpo que a qualquer instante principiaria a ruptura com o espírito, com as pessoas e se deixaria consumir pelo ar. A subjectividade das suas tristezas não seria entendida, e repetia-o vezes sem conta, para se assegurar da sua solidão, para a sentir verdadeira, repartida. Ninguém entenderá a subjectividade das minhas tristezas. Nisto, atravessa-lhe de repente uma enorme vontade de provocar uma combustão interior, de gritar com o rasgar de todos os seus tecidos, de sentir o sangue parar, entornar, de se deixar diluir enfim. No segundo seguinte, num impulso de comunhão, deixou-se adormecer em sossego. No segundo anterior sentira o infinito, e percebera que num outro instante a explicação chegava e o silêncio se explicava com um cerco. Não movera um milímetro. E engolia a seco a impotência do seu ser… a fraqueza da humanidade. Cerra os olhos, como que se apercebendo de novo da sua solidão, abre-os lentamente e ouve-se-lhe na pele um gemer vencido – um ciciar lânguido…verdadeiro, imperceptível, um silenciar.

4 comentários:

mfc disse...

A imponderabilidade como estado consciente.

Vera Cymbron disse...

Quando é dificil fingir...
Jinhos e obrigada pela visita...esse teu blog silênciou-me!

augustoM disse...

Dou-lhe os meus parabéns pelo seu texto, impressionou-me muito na medida em que me toca pessoalmente.
"A proximidade fora só sua, e sentia-a com toda a força no corpo, no corpo que a qualquer instante principia a ruptura com o espírito, com as pessoas e se deixaria consumir pelo ar.
A subjectividade das tristezas não seria entendida, e repetia-o vezes sem conta, para se assegurar da sua solidão, para a sentir verdadeira, repartida."
Desculpe a trancrição desta parte do texto, mas acho-a verdadeiramente genial ou eu não fosse do signo do Aquário.
Um abraço. Augusto

BlueShell disse...

Perdoa a minha falta de assiduidade mas tenho o meu pai no hospital...e está tudo a ser muito complicado! BShell