21 de setembro de 2005

Anotações

Quando o seu olhar se desviou vislumbrei a sua verdadeira essência. Perdi-me naquele instante e apressei-me a interrompê-lo. Demorar-me-ia naquela impressão como quem se delicia a ler vezes sem conta as mesmas linhas, sorvendo toda sua sedução, sílaba por sílaba.
Não sei quanto tempo ali estive, creio que algum, como quem teme o confronto. Teria ficado prostrado, evidenciando todo o abalo daquela terrível sensação, ou simplesmente embevecido e ninguém terá dado por nada, não sei. Como compreender aquele silêncio? Como entender o silêncio que não chega a incomodar? Há impressões de uma inexplicável dimensão profética, maiores que o mundo que conhecemos, maiores que a realidade e maiores que o destino. Começo a escutar. A cadência é incrivelmente simples, sublime, como um enorme poema escrito numa só linha, sem interrupções. De novo preso naquela conversa, quanto tempo terá passado?
- Pareces perturbado, o que se passa?
- Senti o real peso da existência.