20 de novembro de 2004

Evasão

Os seus passos eram curtos, todavia eficientes, rápidos e nervosos. O seu sangue corria a enorme velocidade, mais acelerado que o normal e em sintonia com a sua marcha de atleta em dificuldade. Limitei-me a observa-la.
Todos os seus movimentos lhe salientavam uma natureza atribulada, frenética e por segundos tracei o seu perfil; imaginei que vivia sozinha num primeiro andar na Rua de S. Boaventura, composto por idosos que lhe pediam que comprasse o maço de cigarros da semana, e que cujo passatempo predilecto era conferir as horas a que chegava a menina, vinda sabe-se lá de onde, sabe-se lá com quem. Ocupava um T0, que lhe seria suficiente não fosse o seu gosto por velharias e a sua larga escrivaninha, (que lhe ocupava metade da área, que gastava para ler, pois detestava fazê-lo deitada; nunca arranjava posição), e forçava-se por deixar o seu T0 arrumado antes de sair, pois argumentava que a confusão não a incomodava mas fazia um esforço para as suas eventuais visitas. Poucas vezes trazia alguém consigo porque se apercebia do desconforto que a desordem produzia nos seus hóspedes, que cerravam os olhos por instantes em sinal de desacordo, e se se tratassem de familiares, podia-lhes ver um ligeiro e repreensivo abanar de cabeça. Nesses momentos ocasionava-lhe recomendar as urgências do Hospital de S. Luís a poucos metros de sua casa, mas segurava-se em mudez a cada parecer acerca do seu estilo de vida e da forma como se desligara das pessoas. E ali, como noutras alturas, depreendia a razão de estar sozinha. Quando contígua a outras existências sentia-se angustiar, numa espécie de avidez de campo, de ar e de uma feliz solidão que fizesse o seu pensamento devanear em paz.
Tinha um apetite voraz pelos livros. Entretinha-se durante horas em paixões espantosas que excediam as misérias; em viagens que impunham um regresso, pois tudo se havia resolvido; em contos fabulosos que narravam infâncias mágicas; em poemas que lhe faziam largar a prosa e a considerá-la, por instantes, demasiado descritiva e maçuda; e em mulheres como ela, que um dia sonharam em acordar com o frio do destapar dos cobertores, pelo homem que a meio da noite se arrependeu de não se afligir por um pretenso amor que temera que alterasse a sua vida para sempre. Irritava-se verdadeiramente, a ponto de despedaçar com os dentes uma caneta BIC, com personagens estúpidos, não por se comover, mas por detestar humor, e com insídias sem substância, porque não as entendia. Lera centenas de livros, recitara em surdina milhares de poemas, chorara com todos eles, vestira todas as roupas que as personagens dos seus livros vestiram e gritara em aflição, vezes sem conta, o fim indefinido dos romances que acabava de ler e que a deixavam num terrível atordoamento que se demorava tanto, excedendo os limites da surdez dos vizinhos que corriam em socorro do gritar agudo, provocado certamente por algum tipo de dor.
Impaciente por dentro e por fora; batidas do coração que lhe atraiçoavam o esforço de passar despercebida, num desassossego opressivo, colocando-a em fuga e que denunciava sobretudo uma natureza energética mas também lânguida, pois se observada com outro cuidado transmitia a impressão de algo esperar. O corpo enfezado, um casaco comprido claro, que por centímetros não tocava no chão, a voz trémula, quando solicitada, e uma magreza esguia de doente que a concebia fisicamente desinteressante. Talvez não o fosse, mas sentia-se que acentuava bem a sua distância e que corria para a manter sublinhando-a a cada passo, a cada olhar receoso, a cada questão acerca de si e a cada olhadela examinada cautelosamente de soslaio, pois mais que isso seria expor-se, seria acusar a sua apreensão, seria dar-se a conhecer. E aos poucos livrava-se do resto, fazendo parte dele, pois era matéria que se mexia e ocupava, mas neutra numa linha contínua que de permeio compreendia os outros com facilidade, que os temia e que os assustava.
Atrás de si, um homem segue-a fascinado pelo seu mistério, pela sua beleza distinta das que conhecia, pelo seu andar, pelos seus gestos assustados e pela pressa que lhe fora certamente impingida. Não o vê. Ciente disso, deixei-a ir.
Fui.

8 comentários:

LetrasAoAcaso disse...

Diria: "O lugar da palavra" mora aqui.
Andei tranquilamente a ler muitos dos teus textos que me parecem ter um fio condutor; estaremos a pensar num livro?
Seria uma excelente ideia.

FataMorgana disse...

Já aqui tinha vindo, julgo que ontem, para agradecer e retribuir a visita lá no Claro Obscuro. Mas vi um texto longo, que não tinha tempo para ler... e preferi voltar. Aqui estou, agora já de texto lido :)
Gostei, fiquei presa à personagem - muito interessante! - que agora existe na minha cabeça. Sem dúvida vou voltar para ler textos anteriores e também os futuros.
Parabéns!

Lílian disse...

Que belo texto. Dá para ver a mulher, enquanto se lê.

Anónimo disse...

Muito bom, AF. Adelaide Amorim

Aromas Do Mar disse...

Olá AF;
Obrigada pela tua visita e pela possibilidade que me deste de vir conhecer o teu canto que tanto me fascinou.
Voltarei mais vezes para ler os anteriores assim como os que se irão seguir.
Bom fim de semana
Beijo

Ramon Joy disse...

E se a rua for o lugar sagrado da nossa intimidade, mundana é certa; transeunte; é pela existência ilegal de mirones da alma nas calhas do enquadramento, ou mesmo até por pequenas traves que amparam as lentes.

Ramon Joy disse...

E se a rua for o lugar sagrado da nossa intimidade, mundana é certa; transeunte; é pela existência ilegal de mirones da alma nas calhas do enquadramento, ou mesmo até por pequenas traves que amparam as lentes.

Cláudia disse...

Li o texto e lembrei-me de uma música do Chico Buarque "As Vitrines"...
Parabéns pela escolha "daquela" mulher!