15 de janeiro de 2005

Redenção

Descai a cabeça, deixando cair com ela uma carta, e todas as outras, com um movimento de renúncia, como quem perde a fé e deixa de crer. Desde então não voltara a tirar os olhos do chão, não voltara a olhá-lo com o mesmo sabor.
- Naquele dia, pensei que não te voltaria a ver, e imaginei-me, como um doido, à tua procura. Correria a cidade inteira, por puro instinto, desesperando por não te encontrar. Deixar-me-ia adormecer num canto qualquer, até ser acordado na manhã do dia seguinte, com o sol a queimar-me a pele. E com o levantar rasgava ainda um odor a arrependimento, o bastante para jamais esquecer o seu perfume, para se entranhar na pele; para não mais adormecer ou acordar. E acabaria por morrer uns anos depois, fechado em casa, eunuco, recluso do desespero, onde alguém teria a sensibilidade para sentir o odor do apelo e socorrer a agonia do meu cadáver em putrescência, esquecido e deixado ao acaso; tu. Não. A verdade não te poderia magoar assim. Compreendi que partiria rapidamente… passaram-se longos anos, e embora velho, considero que me precipito. – Lê de lágrimas nos olhos. E sempre que recordo esse dia, o dia em que não te disse a verdade e fugi, angustio-me com a imagem daquele ultimo instante em que eu te vi, através de uma simples expressão em teus olhos, perder toda a fé, e baixar a cabeça.
E assim te deixei, sem nada explicar, com centenas de cartas por abrir, com uma só, selada, para leres. Foram inúmeras as vezes que te escrevi, aliás, que me escrevi, a contar o que sentia, pois não soube escolher as palavras certas, não tive esse destemor e guardei ali, e para mim, um ódio. Um ódio… – Repete em surdina enquanto limpa os olhos às mangas da camisa e entristece com as suas próprias palavras. Um ódio que jamais imaginaria escrever, que não sonhara sequer sentir por alguém; doentio, capaz de matar. Um ódio que arriscava explicar, em centenas de linhas, a minha demência repentina, incalculável, a confusão que se me atravessava e que mudou tudo. Fui capaz de matar a mulher que amo, tive essa intenção. Mas sentia-me chorar, sem o estar, e no fim do choro tudo terminava, e a essência acudia a minha angústia. E assim parti. Fugi. Perdoa-me, mas o destino assim quis fazer de mim um assassino, com toda a profundidade de quem planeja a morte, matemático, pela noite, cego pela raiva inexplicável, subjectiva, inerente num homicida, que confunde os sentimentos, num só instante; que confunde a razão, que se confunde na alma. Mas quis amar-te. Muito para além do amor, da exacerbação do amor, do nosso. O amor não me fez um ser ciumento ou possessivo, mas sim um criminoso, um louco que quis cometer um crime e deixou que os nossos corações se enchessem de ódio. – Di-lo em voz baixa e segura-se com todas as forças à folha enquanto recupera a respiração. Essa exacerbação do amor, baralhou as leis da natureza, rompeu como um encantamento que escuta somente a voz da sedução ao ouvido, num segredar que promete a libertação, o amor líquido, excelso, insuportável, que quis escutar; ávido, sozinho… Recordo o exacto instante, em que a tentação me fez entrar no quarto onde dormias, em que o meu olhar se diluiu no segredar do desespero, em que os segundos se adiantavam e eu te estancava a respiração com as mãos, com todo o meu peso caindo sobre ti. Era indecifrável o vazio, mas sentia-me asfixiar, perdido, tendo tudo... Quando te vi acordar, e me viste armar o ataque, ambos prendemos, por um instante, a respiração e olhámo-nos como predador e presa, retidos na dificuldade da incerteza, da falta de ar. Permanecemos imóveis, em mudez. Senti-te abdicar tudo, submetias-te ao meu desespero, aguardando que agisse, respeitando a minha demência, entristecendo calmamente. Sei que aguardavas um outro acordar; comigo.
E nós, espectadores do sofrimento, olhámo-nos em adeus. De mim, deixei as cartas, centenas de cartas por abrir, com uma só, selada, esta, a última, para leres no dia em que morresse.

4 comentários:

mfc disse...

Tantas palavras que na nossa vida deixamos de dizer...
A nostalgia do diferente que podia ter sido tudo se....

Anónimo disse...

Gostei demais do texto...parabéns.

Beijos,
Marcia http://www.lendoesonhando.blogger.com.br

augustoM disse...

Visita só para informar que aquestaocontinuada por motivos operacinais mudou de casa com o nome Klepsidra.
Um abraço. Augusto

Rute Nogueira disse...

Obrigada AF por, com as tuas palavras, expressares o k muitos de nós sentem e não conseguem transmitir. Um beijinho, com saudades.