9 de setembro de 2005

Anotações

Ainda é noite. Ando às voltas aqui comigo. Alheado, desconhecedor, severo.
Escrever e ser um sonhador, abrir uma tempestade neste quarto, fazer ouvir o ressoar da vida em cada coisa, mirar a árvore adiante, estremecer as suas folhas. Alcançá-la e ser um só corpo, natureza. E tu ilustre e cúmplice literato? Imerso em iguais inquietações, sonhas como eu! Tempesteias o que não alcanças. Imaginas de perto Deus, os seus gestos, o seu sombreado na folha de papel, o seu provir inefável, a sua plenitude intangível, a sua dimensão quando o escreves ou o teu desamparo que te segura a caneta. E da folha ergue-se esse pensamento. Aprendeste a ver, e por segundos existes eternamente na natureza. Mas o nosso medo continua, inconfessável.

4 comentários:

Ernesto disse...

mas a palavra ocupa tempo demais à vida.

zarathustra disse...

Xô Ferro, é com prazer k regresso a esta casa e constato a continuação da qualidade, a harmonia da palavra com a melodia do sensivel.

Abraço pá

Saudades...

Carla disse...

Bom ler...

amartejo disse...

Meu Deus, que bonito e que profundo, ainda por cima com uma ilustração espectacular, parabéns. Os portugueses ainda não se encontraram porque não asumem a sua condição de artistas, nos blogs se vê.