18 de julho de 2008

António Quadros, 85 anos a 14 de Julho

Às vezes é preciso um esforço. Procuro não me prender às imagens de hoje que já não são iguais. Ele não era assim.

Era como eu o via.

Havia a cultura e as letras e os pensamentos, havia tanto que ainda está por descobrir. Havia uma mente para além do tempo e do espaço e à frente desse tempo e desse espaço.

Ele era como eu o vejo. Para além dos feitos e dos ganhos e dos percursos e dos textos e das teses e do talento. Era tudo isso que era ser tão grande, mas era ainda maior quando sabia ser pequeno.

António Quadros, um grande pensador, um enorme homem, sabia tão bem ser pequeno, como nós.

E travámos o carro por culpa da família de elefantes invísiveis, e recebemos de Natal uma casa de montar onde passámos meses a fio, e recebemos os miminhos vindos de outros países, os doces. E vimos dar na missa uma nota e ficámos impressionados, e rimo-nos com a água quente para regar o jardim e recebemos 50 centávos por cada duas favas que apanhássemos e jogámos futebol na praia, brincámos com os truques das mãos quando se finge ser capaz de cortar e voltar a colocar um dedo, perdemo-nos com os bonecos de movimentos perpétuos e as bonecas que vão da maior para a mais pequena e se encaixam umas nas outras e hoje sabemos que se chamam matrioshka's. E sentímos aquele cheiro todo a livros e questionámos a pulseira com as duas bolinhas que tinha no braço e achámo-lo por isso moderno e observámos o seu tique com os dedos de uma só mão que tocavam um no outro, o indicador e o polegar e o outro tique do pescoço e queríamos tanto comer dos seus aperitivos de queijo e questionámos o porquê de só comer marmelada, queijo e banana ao jantar e o porquê de guardar todos os seus remédios num cesto que era um galo...
E a maneira de se sentar na cadeira na praia com as mãos em cima do joelho e um panamá azul claro e quando saltava a rede no court de ténis sem pestanejar e chateáva-se quando dúvidavamos que nos adorava e adormecia com um garfo na mão para acordar e ainda se lembrar do sonho e às vezes fingia ouvir-nos e estava a ser o outro homem que também era tão bom...

Não é só disto que me lembro...

Ele era um mágico. E é assim que ainda o vejo, como o homem que escreveu uma simples e incrível história para crianças. A luz que há de ficar para sempre nas nossas vidas, mesmo que nunca nunca mais se veja um pirilampo.




1 comentário:

rita ferro disse...

Que sorte temos em tê-lo no nosso imaginário, não é? A mim ensinou-me Cristo, Deus, o Sonho, a Filosofia, o Perdão, a Grandeza e o Surreal... Mas tenho que parar aqui. Porque tudo o que tenho de bom, ou quase, vem dele... Era um homem integral que chegou aos filhos, aos netos, aos alunos, aos conhecidos e desconhecidos, à memória da família e do País... Era o MEU PAI, O SEU AVÔ, A NOSSA MAIOR HERANÇA. E que alegria me deu este seu texto tão justo e tão cheio de beleza e verdade! rita f