12 de dezembro de 2003

Siddharta

"- Estás a brincar ?
- Não, digo-te o que descobri. O conhecimento pode ser comunicado mas a sabedoria não. Uma pessoa pode encontrá-la, vivê-la, ser fortificada por ela, operar maravilhas por seu intermédio, tudo menos comunicá-la e ensiná-la.Desconfiei disso quando ainda era novo e foi isso que me afastou dos mestres. Tive um pensamento, Govinda, que igualmente suporás ser uma brincadeira ou uma tolice: em toda a verdade o oposto é igualmente verdade. Por exemplo, uma verdade só pode ser exprimida e envolta em palavras se for parcial. Tudo quanto pode ser pensado e exprimido por palavras é parcial, apenas metade da verdade; falta-lhe totalidade, integralidade, unidade. Quando o sábio Buda ensinou acerca do mundo, teve de o dividir em Samsara e Nirvana, em ilusão e verdade, em sofrimento e salvação. Não se pode proceder de outra maneira, não há outro método para aqueles que ensinam. Mas o próprio mundo, que está em nós e á volta de nós, nunca é parcial. Um homem ou uma acção jamais são inteiramente Samsara ou Nirvana; um homem jamais é inteiramente santo ou inteiramente pecador. [...] O mundo, Govinda, não é imperfeito nem evolui lentamente por um caminho que conduz á perfeição. Não, é perfeito em todos os seus momentos, cada pecado já traz a graça consigo, todas as crianças são velhos potenciais, todos os bebés já têm a morte dentro deles, todos os moribundos já têm consigo a vida eterna.
[...] Aprendi através do corpo e da alma ser necessário que eu pecasse, que precisasse da luxúria, que tivesse de lutar para acumular bens e sentir náuseas e desespero profundo, a fim de aprender a não lhes resistir, a fim de aprender a amar o mundo e a deixar de compará-lo com qualquer espécie de desejado mundo imaginário, com qualquer visão imaginária da perfeição. O essencial era deixá-lo como é, amá-lo e sentir-me feliz por lhe pertencer. Estes, Govinda, são alguns dos pensamentos do meu espírito. "

«Siddharta» - Herman Hesse