14 de agosto de 2007

recado

A poesia eternamente sinónimo de melancolia, casou-se obrigada com a tristeza, a mágoa e o pesar. Sinónimo de inteligência da mente e do espírito foi sendo considerada como o género literário mais difícil de compreender e de alcançar.


Usada tanto na oralidade como na escrita, a poesia significou sempre um lado triste de alguém, ou o lado sincero.
Sempre o compreendi. Sempre me revi na poesia escura e nas palavras duras e sérias e também naquelas vagas, nas metáforas que se compreendem à terceira e no significado que parece ser o nosso. E que e é capaz de ser tão incrivelmente simples.


Na vida, não pode ser igual. A poesia não pode estar ligada ao nosso corpo como a nossa figura. Deve sobrepor-se como uma capa e uma mentira se for preciso. A vida não é o que se escreve.


Um dia achei que sim quando me entreguei por completo e as palavras eram mais palavras (achava eu) se as sentisse como elas se designam.
A morte, o frio, a solidão, a saudade. E tinha que sentir a morte, o frio, a solidão e a saudade.
E as palavras chegavam lindas, com um significado imenso, carregadas de sentimento que os outros nunca compreenderiam porque é bom ser-se incompreendido na poesia, e eu chorava e queria morrer e estava bem ali, naquele fundo imenso, naquele abismo cheio de palavras e cheio de sentimentos e sem nenhuma e qualquer vida.


Não interessava, porque no caderno tinha tudo e um dia... sempre o sentimento utópico de que um dia, alguém iria saber.


Os outros deixaram de ser importantes, não precisava de ninguém para escrever, essa ausência alimentava-me, sustentava-me. E a vida passava. Passava sem que me importasse.
Lá fora havia as coisas que escrevia e adivinhava. Havia as pessoas que me amavam como nunca um livro me poderia amar e conheciam-me como nunca um poema meu o poderia fazer.


Não interessava, porque o meu buraco escuro conhecia-me, achava eu. E a vida lá fora era fraca, débil, superficial. Na poesia criava o meu mundo e a minha vida tinha interesse e conteúdo e linhas e páginas.


Até que um dia, no dia mais triste da minha vida, não fui capaz de olhar directamente nos olhos da minha mãe.


E como se eu fosse doente, procurou os meus olhos e não me conhecia.


Escrever era um corte que diariamente me aliviava os braços e as pernas e o corpo todo. E os outros não me faziam falta até ali.


E nos piores sentimentos que procurei na poesia, encontrei-o ali. À minha frente. Não fui reconhecida por quem estava mais perto.

E sem deixar de lado a minha vida, a minha poesia, aquilo que ainda hoje me faz chorar e sorrir, puxei para mim aqueles, que hoje me fazem escrever.

2 comentários:

AF disse...

Não deve, ainda assim, o poeta percorrer o seu "caminho até ao fundo"? abandonar-se em certa medida? Não creio que se trate de uma escolha, contudo, a dúvida existe, atormenta muitas almas. Sobretudo aquelas mais felizes que depressa encontram a dúvida - o "casamento". Arrisco, humildemente, dizer que há um salto neste «recado»: porque a "entrega", deve existir, sempre, sob pena de ser coisa nenhuma, ora, se a devoção (não necessariamente mutilação) prejudica a vida vivida, pois bem, deve-se estar atento. Mas a missão, a existir, bom, essa deve permanecer. Dostoiveski escrevia e experimentava, experimentava e escrevia. Tornou-se um «jogador» destruindo a sua família, ou um boémio, ou um louco, ou um bêbado, e por aí fora. Mas quantas não terá salvo durante séculos? Ezra Pound esteve preso e afastou todos à sua volta. Huxley, numa devoção desmedida à arte, quis encontrar a Verdade no lsd. Rimbaud, bom, esse, esteve no pior que se pode imaginar. Onde o génio o levou. Porque há algo que nos conduz. Acredito que todos temos um lugar na vida. Um lugar para aqueles que levam uma vida perfeitamente sã, mas também para aqueles, que não foram capazes de serem diferentes, ou melhores, o que é que isso seja: um huxley, um pound, um rimbaud, entre tantos outros.
(outro ponto)
Manoel de Barros refere: "eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina, é um paradoxo que ajuda a poesia." Mas poetas há que se iluminam com a própria luz, essa é a sua inspiração, não necessariamente mais verdadeira, mas possível. A Fernanda de Castro as flores bastavam-lhe, mas não a Pessoa, e muito menos a Luiz Pacheco.

Poética Contraditória

"Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.

Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.

Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heroica dos teus prantos.

Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta."

António Quadros in, «Viagem Desconhecida»

AF disse...

Por isso não leio este teu recado como uma reflexão sobre a poesia. Mas sim e fundamentalmente sobre, aquele lugar, o que tu procuras, e que é, certamente, para ti, e para a tua poesia.